AMARGA TRAIO

Penny Jordan

CAPITULO I

       Briony Winters entrou no escritrio do Daily Globe carregando uma bandeja com duas xcaras, um bule de ch, leite e acar. Abriu a porta de sua sala e viu 
um casaco masculino jogado na cadeira. Doug Simons, seu chefe, sempre recebia visitas, mas as pessoas que freqentavam o escritrio no usavam casacos to bem talhados 
e caros como aquele. Briony colocou a bandeja sobre a mesa e notou que a porta que dava para a sala de Doug estava, entreaberta.
       - E claro que depois de ter trabalhado no Telegraph voc no encontrar dificuldade por aqui - ele falava.
       - Est querendo me dizer que eu poderia ter algum tipo de problema?
       - Estou me referindo a Briony.
       - Briony?
       - Minha secretria - acrescentou Doug. - Agora, sua. No comeo talvez lhe d um pouco de trabalho... at que ela se acostume com voc.
       - Talvez me d trabalho? Meu Deus, no  de admirar que suas vendas estejam caindo! Voc permite que sua secretria lhe d ordens? - Ao ouvir essas palavras 
insolentes, Briony sentiu vontade de entrar na sala de Doug e exigir que lhe explicasse por que achava necessrio dizer a seu substituto que ele poderia ter "problemas". 
Afinal, ela era a secretria mais eficiente daquele lugar! Briony estava de frias quando soube da promoo de Doug, e, ao voltar, encontrou o jornal em grande agitao. 
Doug deveria partir apenas trs dias aps a chegada de seu substituto. Desde que um grupo de americanos comprou o Globe, o corre-corre virou uma constante, e Briony 
nem se surpreendeu quando ficou sabendo que o novo chefe viria dos Estados Unidos. Ela no gostava de americanos, pois em sua opinio costumavam ser impetuosos e 
mandes e, o que era pior, nunca aceitavam um "no" como resposta. Doug no tinha o direito de falar daquela forma! - Por acaso ela  alguma bruxa histrica? - perguntou 
o outro homem com sarcasmo.
       - Nada disso! Pelo contrrio, tem o corpo mais bem-feito que j vi. Mas ai do pobre diabo que tentar toc-Ia! Briony tem pavor dos homens. No quer v-Ios 
nem pintados! Srio! Deve ser algum trauma de adolescncia.
       - Voc quer dizer que por causa de uma paixo que no deu certo ela agora sente dio mortal dos homens? Pelo amor de Deus, o que  isto, Doug, j estamos 
quase no sculo XXI!
       - Bem, algumas pessoas levam tudo a srio demais! Estou lhe avisando s para facilitar as coisas! Ela  a melhor secretria que j tive, d um duro danado 
e  muito eficiente.
       - At pode ser. Mas se precisa ser tratada com tantos cuidados, acho que est no lugar errado.
       Nos ltimos meses tinha havido mudanas no jornal, e Briony ficou apavorada com a possibilidade de ser despedida. No podia nem pensar nisso. Dependia muito 
do emprego, pois, alm de ganhar bem, seu chefe era muito flexvel com relao ao horrio que ela fazia. Porm Doug estava indo embora e agora ela trabalharia para 
um homem que j detestava antes mesmo de conhecer. 
       O intercomunicador tocou, e ela atendeu com frieza.
       - Briony, voc poderia vir aqui um minuto? - pediu Doug. - H algum que eu gostaria que conhecesse.
       Ela se levantou, pegando o bloco de anotaes e o lpis, como costumava fazer. De pequena estatura, Briony tinha longos cabelos loiros, um rosto oval e grandes 
olhos esverdeados. Sua pele era clara e macia, e as feies, muito delicadas. S se percebia a amargura em seu olhar quando um homem tentava ofend-Ia sexualmente. 
Com vinte e trs anos, era dona de uma tranqilidade comum a mulheres dez anos mais velhas do que ela. "Fria e insensvel" eram dois dos insultos que homens frustrados 
j haviam lhe dirigido, mas, ao contrrio de ofender, eles eram at lisonjeiros. No tocante aos homens, suas emoes estavam enterradas, deixando transparecer, s 
vezes, um sentimento de profundo rancor. Apesar disso, Doug admirava sua secretria. Fria e calma quando surgia uma emergncia, era a pessoa ideal para enfrent-Ia. 
Todos os dias trabalhava das oito s dezoito horas e, se necessrio, ficava durante o horrio de almoo ou at depois do expediente. Em compensao, quando tinha 
algum problema, Doug mostrava-se sempre compreensivo. As colegas de Briony brincavam dizendo que ela vivia s para o jornal, sua verdadeira famlia. 
       Ao abrir a porta, seu chefe lhe sorriu. Tinha cerca de cinqenta anos, muita energia e trabalhava em jornais desde que havia se formado. Ele e Briony sempre 
se deram bem, ou pelo menos era o que pensava at ouvi-Io falar to abertamente sobre ela. Bem casado, Doug nunca representou ameaa  sua paz de esprito.
       Ela lhe retribuiu o sorriso, mas seus olhos continuaram claros e frios como vidro. O outro homem permaneceu de costas para ela, parecendo no notar sua presena. 
Tinha os cabelos escuros e espessos, cortados na altura do colarinho da camisa.
       - Ken, apresento-lhe sua nova secretria, Briony. Briony... Ken Blake.
       - Briony? - Ele se virou, mostrando-se assustado. 
       Embora aterrorizada, Briony tentou no demonstrar o que sentia. Deixe que ele pense o que quiser! Mas um rpido olhar foi suficiente para perceber que ele 
no havia mudado em nada. Aquele rosto de traos msculos continuava ainda bastante perturbador. A pele dele estava bronzeada, os cabelos um pouco mais longos e 
a roupa mais formal.
       - Ken precisar de toda sua ajuda at que consiga se adaptar, Briony - disse-lhe Doug, desconhecendo o que ocorria  sua volta. - Vou apresent-Io aos outros 
editores e depois iremos almoar. Qualquer coisa urgente fale com Phil, est bem?

       Phil Masters era assistente de Doug, um escocs alto, forte, ruivo e bem-humorado. 
       Ken estendeu a mo para ela com uma expresso de desprezo e indiferena que acabou se transformando em irritao quando automaticamente Briony se afastou. 
Com Doug por perto ela no podia fazer uma cena, mas o toque daqueles dedos frios em sua pele a fez estremecer. E isso era apenas o comeo... Quando Briony voltou 
para sua sala, Ken murmurou algo para Doug e a porta foi fechada. O medo que ela pensava no existir mais reapareceu.
       - H quanto tempo Briony trabalha para voc? - perguntou Ken, por acaso, enquanto Doug pegava o casaco.
       - H mais ou menos um ano e meio. A melhor secretria que j tive. Pelo visto voc a conhecia, no?
       - A princpio pensei que sim. Ela me pareceu uma daquelas mulheres sedutoras que acabam envolvendo os homens s para depois sentir prazer em dispens-los.
       Doug no disse nada. Afinal, o que quer que tivesse havido entre Briony e Ken no era problema dele. Entretanto, pde perceber que os dois no se entenderiam 
bem daquele momento em diante. Ambos saram do escritrio e passaram por Briony, que observou o rosto indiferente de Ken. Depois, ela voltou a olhar para a mquina 
de escrever e ficou tentando imaginar uma maneira de no pr mais os olhos em Ken Blake. No havia sada, a no ser que ela desistisse do emprego; coisa impossvel, 
j que precisava de cada centavo daquele salrio. Fechou os olhos e subitamente estremeceu de frio.
       A porta do escritrio foi aberta, e Briony ficou tensa e plida, esperando pelo pior, mas era apenas Matt Dyson, um dos sub-editores. Costumavam comentar 
no Globe que, enquanto ela tratava com frieza todos os homens, Matt Dyson era seu nico acompanhante masculino.
       - Algum problema? - perguntou ele, fitando-a. Doug costumava referir-se a Matt como o "cozinho de estimao" de Briony. Ele era nervoso e introspectivo, 
e os outros freqentemente riam dele quando no estava por perto. Certa vez havia confidenciado a Briony que gostaria de ser pintor, mas que seus pais se opuseram 
na poca. Tinha quase trinta anos, cabelos claros e finos e suaves olhos castanho-claros. Havia sido abandonado pela esposa duas semanas aps o Natal e agora, passados 
trs meses, ainda esperava que ela voltasse. - Quer almoar comigo ou voc tem outro compromisso? - perguntou Matt.
       Ela no tinha nada de urgente para fazer e nem estava com fome, mas no podia ficar no escritrio pensando em Ken Blake. Para sua surpresa, Matt a levou at 
um novo restaurante, que tinha se tornado o ponto de encontro dos funcionrios do Globe. No restaurante s havia duas mesas vagas, uma de seis lugares e outra de 
dois, onde acabaram sentando. Como de costume, Matt levou uns cinco minutos para escolher o prato, ao contrrio de Briony, que fez seu pedido imediatamente. Quando 
comearam a comer, a mesa de seis lugares ao lado foi ocupada. Briony sentia que a examinavam, mas recusava-se a olhar. Nesse instante, Matt se voltou para lhe dizer 
alguma coisa e derrubou o copo de vinho sobre a saia de l creme dela. Briony se levantou, tentando limpar a saia, e ao sentar-se viu que os ocupantes da outra mesa 
eram Doug, Ken e quatro outros editores do jornal.
       - Sentem-se aqui - convidou Doug, chamando um garom para juntar as mesas.
       Briony desejou que Matt recusasse, o que no aconteceu. Logo em seguida ela se viu sentada entre Doug e Ken, enquanto Matt havia se acomodado do lado oposto, 
prximo a Gail Wyndhan, uma das editoras.
       Gail e Briony nunca tinham sido muito amigas. Gail era uma mulher de carreira e no fazia segredo da atrao que sentia pelo sexo oposto. Comentava-se que 
ela conhecia intimamente todos os homens atraentes do Globe, e, vendo a maneira como olhava para Ken Blake, Briony no teve dvida de que ele logo entraria na lista. 
Virando-se para Ken, Gail comentou:
       - H sculos que tento encontr-lo. Voc era uma celebridade por aqui, mesmo depois de ter ido para os Estados lJnidos... - Desde o instante em que Briony 
havia visto Ken no escritrio de Doug, sabia que esse momento desagradvel chegaria. Parecia ironia que depois de tanto tempo de pesadelo o confronto acontecesse 
quando ela achava que tudo tinha terminado. - O caso Myers - continuou Gail - fez histria no jornal.  o tipo de furo com que todos os jornalistas sonham. Enquanto 
o resto da imprensa especulava para que parte do mundo James Myers teria ido, voc conseguiu descobrir que ele estava aqui o tempo todo, fazendo-se passar pelo namorado 
da irm.
       - O caso Myers? - perguntou Doug. - No era aquele financista trapaceiro que todos diziam haver economizado milhes?
       - Sim. No foi um caso muito agradvel - disse Ken friamente. - O homem entregou-se a uma espcie de roubo legal durante anos, mas deu uma escorregada fatal 
e foi descoberto. Todo mundo sabia o que estava acontecendo, mas ningum conseguia provar, e, antes que a polcia pudesse formular uma acusao contra ele, surgiu 
o rumor de que tinha deixado o pas.
       - S voc no acreditou na viagem dele - comentou Gail, admirada. - Como descobriu a verdade? Segundo a opinio geral, ele era quase um mestre em disfarces 
e ficou andando livremente de um lado para o outro durante semanas.
       -  verdade. Ele pretendia deixar o pas depois que as coisas esfriassem um pouco. Tive sorte.
       - E uma tima informante, se os boatos foram verdadeiros - disse Gail, rindo. - Voc conseguiu a maioria dos detalhes para sua histria com a companheira 
de apartamento da irm de Myers, no  verdade?
       - Eu nunca revelo as minhas fontes.
       Briony notou que Doug estava muito impressionado por essa aparente demonstrao de lealdade, e se sentiu incomodada ao perceber os olhos de Ken sobre si; 
no importava que ele fingisse para os outros, ela sabia a verdade!
       - Nesse caso voc no precisa revelar - disse Gail. - Eu gostaria de saber o que aconteceu com aquela garota. At se pensou que ela fosse cmplice.
       - Cmplice? Mas... - Ken se deteve, e Briony observou o abalo momentneo com amarga satisfao.
       - Certamente voc sabe - comentou Gail.
       - Como editor de um jornal  preciso saber e no simplesmente ir admitindo o que parece bvio - respondeu Ken.
       - Foi uma reportagem muito inteligente - observou Doug entrando na conversa.
       - Inteligente? - Briony retrucou sem conseguir esconder o dio em sua voz. -  o que todos vocs pensam? Que  inteligente destruir a vida de algum apenas 
para conseguir uma histria de primeira pgina? Bem, eu no penso assim. Acho esse tipo de atitude desprezvel, abominvel! - Ela parou, percebendo que os outros 
trocavam olhares perplexos.
       - Vamos, amor, voc no acha que est levando isso para o campo pessoal? - comentou um dos homens.
       Por alguns instantes Briony ficou pensativa.
       - Algo errado, Briony? - Ken deu nfase ao nome dela. - Parece que voc no est gostando do almoo.
       - O almoo est timo, mas, se vocs me permitem, eu tenho muito trabalho a fazer - respondeu, levantando-se.
       Ela havia se afastado bem pouco da mesa quando ouviu Gail exclamar com triunfo:
       - Beth Walker, este era o nome da garota!
       Briony ficou gelada. O medo tomou conta de seu corpo, e ela comeou a suar frio.
       - Beth Walker - Ken repetiu, e Briony sabia, mesmo sem olhar para trs, que ele a observava.
       Foi com esforo que conseguiu voltar ao escritrio e sentar, pois sua vontade era apanhar o casaco e sair antes que Doug e Ken regressassem. Pegou a lista 
telefnica e discou o nmero de uma conhecida agncia de empregos. A garota que atendeu foi prestativa, mas informou que talvez levasse meses at que pudesse encontrar 
uma colocao que fosse to bem remunerada como a sua atual. De repente, a vida de Briony havia se transformado num terrvel pesadelo. Beth Walker... Quando deixou 
esse nome, livrou-se tambm do passado... pelo menos durante todo aquele tempo tentou se convencer disso. Havia muitas recordaes ainda vivas! Mudou de nome depois 
que as atenes dos jornais se tornaram insuportveis. Era irnico que ela agora trabalhasse para um jornal, mas fora mais por necessidade que por vocao. Precisava 
de um emprego onde pagassem bem e de patres que estivessem dispostos a contrat-Ia sem se aprofundarem muito em seu passado. Isso ela encontrou em Doug no Daily 
Globe. Ainda se sentia mal ao pensar em como tinha sido tola confiando em Ken Blake. 
       Encontrou-o pela primeira vez no apartamento que dividia com Susan Myers. Ele havia ido at l para entrevistar Susan para um artigo da coluna social. Briony 
e Susan tinham crescido na mesma cidadezinha. Susan era a filha mimada do dono de quase toda a cidade, sir Arthur Myers, e Briony a conheceu por intermdio de seu 
pai, que era o mdico da famlia Myers. Haviam freqentado a mesma escola, mas no eram muito amigas. Foi somente com a morte do pai e da me de Briony, com o intervalo 
de apenas seis meses entre um e outro, que elas acabaram se aproximando. O pai de Briony no era rico. Tinha alguns investimentos e a casa que ela vendeu, aps a 
morte dele, seguindo as instrues do advogado. Pretendia ir para a universidade, mas, tendo medo de gastar o pouco dinheiro que possua, decidiu investir e freqentar 
um curso de secretariado. Foi ento que Susan Myers sugeriu que elas dividissem o apartamento. Susan no pretendia seguir a carreira de secretria; suas ambies 
nunca foram to modestas. Os pais lhe pagaram um curso de manequim, do qual ela saiu insinuante e sexy, e o trabalho ocasional como modelo mais a mesada lhe deram 
um estilo de vida bem diferente do de Briony. Bem antes de terminar o curso, Briony j estava arrependida de morar com Susan. No concordava em participar das festas 
noturnas, bastante freqentes, e sentia-se constrangida com os encontros amorosos dela. Mas, como po podia arcar sozinha com as despesas de um apartamento, era 
obrigada a suportar tudo aquilo.
       Conhecia James Myers apenas de nome. Susan era filha do segundo casamento de sir Arthur e, embora se vangloriasse do sucesso do meio-irmo, nunca o levara 
ao apartamento. Briony no fazia questo de conhec-Io, pois no gostara das informaes que os jornais tinham dado a respeito dele. Mas quando a histria explodiu, 
ningum acreditou que ela fosse totalmente inocente, e a nica pessoa que podia confirmar isso no o fez.
       Ken deve ter ficado satisfeito por no encontrar Susan naquela noite. Briony disse-lhe que ela demoraria a chegar, mas ele no demonstrou a menor pressa em 
ir embora. Eles conversaram bastante e, pela primeira vez desde que seus pais tinham morrido, ela no se sentiu completamente sozinha. Quando Ken a convidou para 
sair, no hesitou em aceitar e nem suspeitou que as perguntas dele tivessem outro interesse como objetivo. Certa noite, ele a levou para jantar e, quando voltaram, 
encontraram Susan e o novo "namorado" no apartamento.
       Os jornais diziam que James Myers era um verdadeiro mestre em disfarces e certamente nunca passou pela cabea de Briony que aquele rapaz fosse o irmo de 
Susan. Ele ia freqentemente ao apartamento, e os dois sempre se trancavam no quarto dela. Qualquer coisa que porventura Ken tenha lhe perguntado a respeito de Susan 
e do "namorado", Briony inocentemente deve ter lhe respondido. Foi ela quem lhe informou, por exemplo, que Susan estava de partida para o exterior, para fazer um 
trabalho corno modelo, sem ao menos sonhar que se tratava apenas de urna cobertura para que James Myers pudesse sair do pas com passaporte e documentos falsos.
       Naquela noite, lembrava-se bem, Ken fora bastante amoroso. Eles saram da cidade e passaram para beber um suco num barzinho s margens do Tmisa. Fazia calor, 
e ela estava usando uma camiseta de malha fina e urna bonita saia de algodo. De repente, Ken passou um dos dedos pelo decote da camiseta, tocando-a nos seios e 
deixando-a muito excitada. Como podia algum to atraente se interessar por ela? No carro, ele a puxou para junto de si com uma intimidade que fez com que estremecesse. 
Nem por um momento Briony teve dvidas do que estava sentindo. Quando Ken a beijou, ela correspondeu, confiando completamente nele. Voltaram ao apartamento em silncio. 
Foi ento que tudo aconteceu... O corpo de Briony estava leve e seus olhos cheios de amor quando ela o encarou. Mais tarde, se lembraria de como Ken havia estacionado 
o carro e dito apaixonadamente: "No me olhe assim..." Que tola tinha sido ao pensar que, olhando-o daquele jeito, ele no seria capaz de se controlar! Se soubesse! 
Durante todo o tempo Ken fora um timo ator, frio e calculista, manipulando-a como uma marionete.
       O apartamento estava vazio. Susan tinha ido visitar a famlia no fim de semana, pois seu pai no estava passando bem. Ken tomou Briony nos braos, beijando-a 
com uma paixo que a deixou indefesa. Ela se recordava de ter protestado, dizendo que ia fazer caf, mas Ken sorriu e lhe falou que tinha outros planos em mente. 
A mo forte escorregou para dentro da camiseta e comeou a acariciar os seios dela. Quando Ken abaixou a ala e beijou a pele que antes havia percorrido com suavidade, 
Briony estremeceu.
       - Voc  linda - disse ele ao mesmo tempo em que a despia.
       Ela sabia que no estava agindo certo, mas os argumentos que tinha eram pouco convincentes. Como poderia ser errado aquilo que sentia em relao a Ken? Tudo 
era maravilhoso... Briony no se lembrava de como foram para o quarto, mas recordava claramente do calor do corpo de Ken contra o seu; da sensao diferente que 
a masculinidade dele provocava a cada novo toque; da necessidade que crescia e se espalhava por todo seu corpo, deixando-a trmula de tanto desejo. O pensamento 
de posse no a amedrontou, as maneiras suaves de Ken tinham afastado esse medo. Mas ela no esperava aquele repentino desejo que tomou conta dela, afastando todas 
as barreiras da inocncia e inexperincia. Ken a acariciava suavemente, levando-a a uma loucura incontrolvel, antes de possu-Ia completamente. A dor era intensa 
e profunda, e Briony gritou para que ele parasse, mas seu grito foi ignorado. Por um momento a dor e a mgoa se transformaram em ressentimento, e ela comeou a lutar 
contra aquele domnio. Mas, como se Ken j esperasse por isso, o corpo dele a fez sentir depois da dor o prazer, um prazer que Briony nunca havia conhecido, e seus 
gritos tornaram-se vagarosamente murmrios de desejo. Ela adormeceu nos braos dele, tendo certeza de que no havia felicidade maior. No se envergonhava do que 
acontecera. Tinha sido natural e bonito, e Briony sentiu-se gratificada pela pacincia e habilidade de Ken.
       Na manh seguinte, ela ainda experimentava as mesmas sensaes, mas num clima diferente. Enquanto dormia, Ken havia revistado o apartamento e descoberto a 
falsa identidade de James Myers. Ele conseguiu a primeira pgina do jornal, e Briony s ficou sabendo disso quando chegou no servio. Viu o artigo e reconheceu o 
nome Myers assim que comeou a l-Io. A matria estava assinada por Ken, e ela ficou to abalada que seu chefe a dispensou. Quando chegou ao apartamento, havia vrios 
reprteres e policiais e nenhum deles a tratou com gentileza. Os jornais a descreviam como "a informante de Ken Blake".
       Susan voltou do campo com os pais, e sir Arthur fora extremamente rude ao usar a influncia que tinha. No fim da semana, o chefe pediu para que Briony arrumasse 
outro emprego. Ela trabalhava num escritrio de advocacia e, como ele disse, com grande embarao, os clientes no confiariam numa firma cuja funcionria tivesse 
trado a confiana de amigos. Ela sentiu vontade de esclarecer todo o equvoco, porm seu orgulho era mais forte e permaneceu calada. Seu nico crime foi imaginar-se 
amada, pois jamais diria uma palavra que pudesse quebrar a confiana de algum. A polcia a interrogou exaustivamente. E quando sir Arthur morreu de um ataque cardaco, 
logo aps ter ido para o tribunal, Briony recebeu uma avalanche de cartas terrivelmente acusadoras. Foi quando decidiu trocar de nome. Por trs meses viveu num verdadeiro 
inferno e daquela poca em diante no ouviu mais falar de Ken. Tampouco tentou encontr-Io. Apenas o orgulho tinha lhe dado foras para atravessar aquela fase, mas 
a confiana em si e a inocncia nunca mais voltariam...
       A porta foi aberta, apagando o passado. Briony desviou os olhos da lista telefnica para olhar Ken. Ela correu o dedo pela lista at parar numa agncia de 
empregos.
        - Voc est sem sorte? - ele perguntou sarcasticamente.
        Briony tentou no responder; fechou a lista e colocou uma folha na mquina.
       - Desculpe, sr. Blake.
       - Sr. Blake? Ns no precisamos ser to formais, Beth!
       - No me chame assim! - gritou ela.
       - Por que no? Esse no  o seu nome?
       - No  mais. Eu o enterrei, com o passado.
       - Muito bem. Diga-me, Briony, voc trouxe alguma coisa da Beth com voc, quando resolveu mudar sua personalidade?
       - Nada - afirmou. 
       Por que ele queria relembrar um passado que ela tanto desejava esquecer?
       -  uma pena! Pelo menos ela era quente... uma mulher viva.
       - Que voc matou!
       - Por que est dizendo isso? - Quanta inocncia, pensou amargurada. Como ele podia perguntar-lhe isso? No a tinha usado friamente at conseguir a histria 
que lhe interessava e depois a abandonara?  Ken sabia como ela se sentia em relao a ele, nunca fora segredo. Ele era inteligente, devia imaginar como ela reagiria, 
e quanto ficara angustiada. Briony soube por intermdio de um fotgrafo que trabalhava com Ken, num encontro casual trs meses depois, que ele havia partido para 
o exterior e que a carreira dele estava no auge. - Quer dizer que no ficou nada do passado? - insistiu Ken.
       Ele a olhava intensamente. O que ele queria agora? Briony tentava imaginar.
       - Nada.
       - No minta, Briony! - gritou ele, com raiva. - Eu vi seu rosto quando voc entrou no escritrio. Voc me odeia, no ?
       -  lgico! O que voc esperava? Depois de tudo o que me fez...
       Ele a observou por alguns instantes e depois continuou:
       - Voc est certa. A Beth que conheci no teria ficado to ressentida nem teria se tornado to amarga. A Beth que pensei conhecer nunca... - Ele parou de 
falar e se aproximou dela, encarando-a. Briony pensou notar algum tipo de emoo nos olhos dele que, se existiu, desapareceu instantaneamente. - Voc est segura 
de si. J disse o que queria, mas eu no pretendo trabalhar com uma secretria que olha para mim desse jeito. Por isso, se eu fosse voc, procuraria mudar de idia. 
- Indo em direo  porta, continuou: - Pelo menos uma coisa no mudou, se  que as fofocas so verdadeiras. Parece que voc ainda sente prazer em chutar os homens, 
com uma nica e notvel exceo. - Briony engoliu em seco ao ouvir aquela acusao e ao perceber o sorriso cnico que acompanhou as ltimas palavras dele. Ia pedir 
uma explicao, quando Ken prosseguiu: - Parece que voc no vai mudar em relao a mim, Briony. Voc me odeia e me despreza, certo? - Como ela no respondesse, 
ele perguntou: - Por isso voc acabou escolhendo Matt? Ele no  um homem...  um palerma!
       Briony empalideceu, e ao erguer o olhar viu Ken saindo da sala. No conseguiu conter as lgrimas.

CAPITULO II

       J passava das sete horas da noite quando Briony desceu do nibus. No ltimo minuto surgiu um artigo urgente, e ela precisou trabalhar at mais tarde. O caminho 
at sua casa era longo, mas havia trs anos a tinha comprado justamente por ser fora da cidade. A propriedade era dividida em dois apartamentos independentes. Briony 
morava na parte de baixo e a outra era habitada por um casal de italianos. Eles tinham uma filhinha, Caterina, e Briony se dava muito bem com essa famlia, principalmente 
com Gina, esposa de Paolo que era de sua idade. Gina a esperava quando ela abriu a porta, e isso a deixou assustada. 
       - Aconteceu alguma coisa?
       - Calma, est tudo bem - disse Gina. - Nunca conheci uma me to aflita! S vim apanhar o pijama dele. Parece que j est cansado de brincar no jardim.
       Aliviada, Briony se encostou na porta. Esse era o preo que tinha de pagar por trabalhar fora. Sabia que Gina cuidava de Nicky como se fosse seu prprio filho, 
mas sempre temia que ele precisasse dela enquanto estivesse ausente. A sorte era ter Gina por perto. O casal havia chegado em sua casa desesperado, e Briony deixou 
que ocupassem o apartamento por um modesto aluguel. Como Gina no trabalhava, era ela quem tomava conta do menino.
       As duas subiram para o apartamento de Gina e quando chegaram l um garotinho moreno se atirou nos braos de Briony, perguntando por que tinha demorado.
       - Estive trabalhando para ganhar bastante dinheiro, meu amor - respondeu suavemente.
       Nicky sabia que sua me precisava ganhar dinheiro, mas Briony achava insuportvel ficar repetindo sempre a mesma coisa.
       - Ele j tomou o ch - disse Gina com um sorriso.
       Briony agradeceu, sem tirar os olhos do filho.
       - Voc ficou bonzinho? - perguntou ela, com interesse.
       Quando o filho respondeu que sim, seu corao se encheu de amor.
       - V buscar os brinquedos para a mame - disse Gina, fechando a porta da sala atrs dele.
       - O que h de errado? - Briony quis saber depois que Gina fechou a porta.
       - Na verdade, nada. Hoje, quando estvamos no parque, Nicky perguntou pelo pai. Ele  muito inteligente, Briony. J notou que Caterina tem pai e me e constantemente 
me faz perguntas sobre o que aconteceu com o pai dele. Ser que ele realmente no o quer?
       - O pai dele nem mesmo sabe que Nicky existe. Por favor, Gina, no toque nesse assunto, principalmente hoje. Eu no suportaria...
       - Pelo bem de Nicky voc deveria contar-lhe. Voc no pode iludi-Io eternamente. Logo ele ter idade para ir  escola, e as outras crianas vo ficar curiosas.
       - Hoje em dia  normal crianas com apenas um dos pais, e certamente Nicky est vivendo melhor apenas comigo do que com pais que brigam constantemente...
       - Ele  muito sensvel. Quando pergunta pelo pai, seu olhar fica confuso e isso me corta o corao. Hoje ele quis saber se o pai no o queria. O que eu podia 
responder? Felizmente consegui distrair sua ateno. Mas Nicky est crescendo e logo ter trs anos. O que voc vai lhe dizer?
       - O que posso dizer? - perguntou Briony, com amargura. - Ele foi concebido por acidente e meu... caso com o pai dele j estava terminado havia muito tempo 
quando descobri que estava grvida. Como posso lhe contar isso? - Elas ouviram a porta se abrir, e Nicky apareceu carregando um ursinho de pelcia e uma .sacola 
de brinquedos de plstico. - Diga boa-noite a Gina - disse Briony.

       Mais tarde, quando o colocava na cama, ela examinou cuidadosamente as feies de Nicky. Ele era muito parecido com Ken: tinha os mesmos olhos e os mesmos 
cabelos castanhos. Ao descobrir que estava grvida, Briony deixara o emprego. Praticamente tinha ficado histrica ao ver-se envolvida num escndalo, tendo de enfrentar 
a imprensa e a polcia, e a notcia de que estava esperando um filho de Ken quase a levara  loucura. Quando o menino nasceu, aps uma noite de dor e angstia, no 
quis v-Io, mas a parteira colocou-o em seus braos e desde ento Briony no quis mais se separar do filho. Ela sentia uma leve satisfao ao saber que Ken nem imaginava 
a existncia dessa criana. No fora fcil cri-Io sozinha, principalmente com a preocupao de sustent-Io e garantir-lhe o futuro. At agora Nicky havia aceitado 
o fato de ter apenas a "me", mas, como Gina bem disse, no demoraria para que comeasse a fazer perguntas sobre o pai.

       Na manh seguinte, Nicky parecia estranho. Estava com o olhar distrado e distante ao sentar-se para tomar o caf da manh e Briony imaginou que talvez ele 
tivesse percebido sua tenso.
       - No v trabalhar, mame - pediu ele, com os olhos cheios de lgrimas. - Fique comigo, est bem?
       - Voc sabe que eu preciso ir, Nicky. Amanh  sexta-feira e depois disso a mame ficar dois dias inteirinhos com voc. Se voc se comportar, iremos dar 
um bonito passeio.
       - Onde? - perguntou ele, esquecendo as lgrimas. - Ver os ursos no zoolgico?
       - Quem sabe? Termine de comer o pozinho como um  bom menino, filho.
       Por causa de Nicky, Briony se atrasou e quando chegou na avenida viu seu nibus indo embora. No gostava de chegar atrasada na parte da manh, mas Doug compreenderia. 
No que ele soubesse sobre Nicky. Ningum no escritrio imaginava que tivesse um filho, e ela queria que continuasse assim principalmente agora que Ken estava trabalhando 
no jornal.  
       Ele nem mesmo quis saber por que eu troquei de nome, pensou com amargura. Ela se chamava Elizabeth Walker. Ento tirou o primeiro nome e mudou o sobrenome 
para o de solteira de sua me: Briony Winters. Ken no perguntaria porque com certeza tinha seguido todos os detalhes pelos jornais.
       J eram nove e dez quando ela chegou ao escritrio.
       - Ora, viva! Finalmente voc chegou! - Ken exclamou, com rapidez. - Est dez minutos atrasada. Hoje  uma exceo ou preciso ir me acostumando?
       - Sinto muito pelo atraso - ela desculpou-se friamente, apanhando os envelopes que estavam sobre a escrivaninha. - Vou apenas examinar a correspondncia e 
ento estarei  sua disposio.
       - Ei, madame, onde a senhora pensa que vai com isso? Ningum me passa para trs, est ouvindo? Sou perfeitamente capaz de tratar disso sozinho. Com certeza 
Doug precisava muito de sua assistncia, mas eu no. D-me isso.
       - Sim, sr. Blake - ela respondeu, entregando-lhe as cartas. - Por falar nisso, onde est Doug?
       - Acredito que esteja se despedindo. Hoje  seu ltimo dia por aqui.
       - Mas pensei que...
       - Voc pensou o qu? Que eu tinha necessidade de que ele cuidasse de mim at quando? Este lugar no comporta mais de uma pessoa. Por isso, por mais que goste 
e respeite Doug, no quero que ele fique supervisionando tudo o que fao. Tenho certeza de que ele sentiria o mesmo na minha situao.
       - No demorou muito, no ? Primeiro voc tenta se livrar da secretria e agora quer que ele tambm v dando o fora. E isso?
       - Doug disse para lembr-Ia de que ele a espera esta noite no barzinho para comemorar com o pessoal. Creio que seu namoradinho tambm estar l.
       Ela ia dizer que no tinha namorado, quando compreendeu que Ken se referia a Matt.
       - Provavelmente no irei. - Briony no tinha avisado Gina de que chegaria atrasada.
       - Parece que encontra prazer em estragar o divertimento dos outros, no ? Agora posso entender por que voc teve de se livrar de "Beth". Ela era muito doce 
e simples. Gostaria de saber que pensamentos passam por essa sua cabecinha fria. Voc nem mesmo pode se humanizar um pouco e se despedir de Doug?
       - Voc no tem o direito de falar assim comigo! 
       Ela tremia de medo e raiva. Era como se pela primeira vez o estivesse vendo sem aquela adorao de antigamente. Como poderia ter achado que ele era um amante 
terno ou um homem que transmitia segurana? Ken era um predador, um caador que matava e despedaava as presas que abatia.
       A porta se abriu e Doug entrou, olhando de Ken para ela. 
       - Que tal um caf, amor? - sugeriu a Briony. Virando-se para Ken, acrescentou: - Briony  maravilhosa. Antes de ela vir trabalhar aqui, tnhamos de nos contentar 
com o caf da cantina, mas agora tomamos cafezinho fresco todas as manhs. Garanto que  um tratamento bem melhor do que aquele que voc recebia nos Estados Unidos.
       - L existem mquinas. Por isso,  menor a perda de tempo. O que acontece quando Briony se ausenta do servio? Voc contrata secretrias temporrias ou...
       Briony no quis olhar para Ken. Ele estava tentando descobrir se havia outra secretria que pudesse ficar no lugar dela.
       - Quando ela tirou frias, fiquei com uma das garotas do servio temporrio. No  o ideal, de jeito algum, mas ns nos arranjamos. Voc vai hoje  noite, 
no vai, Briony?
       - No sei... no estou convenientemente vestida.
       - Pois eu fao questo da sua presena. Vou sair e deixar que vocs se conheam melhor. E, por favor, mantenha o caf quente - acrescentou, saindo da sala.
       - Nunca imaginei que tivesse se tornado uma sedutora, Briony. Parece que voc tem todos os homens na palma da mo - Ken comentou com ironia. Ela engoliu o 
insulto, dando graas a Deus por estar de costas para ele. - Deixe isso para l - ordenou ele, quando ela foi apanhar a cafeteira. - Ns temos muito trabalho hoje. 
- Ela o acompanhou at o escritrio e comeou a anotar um ditado. Como que para castig-Ia, ele ditava numa velocidade muito maior do que Doug costumava fazer, entretanto 
Briony no se preocupou. Ela adorava taquigrafia e esta foi uma tima oportunidade para coloc-Ia em prtica. Procurava caprichar o mximo, quando de repente o telefone 
tocou. Ken o atendeu, ouviu em silncio e depois disse: - Claro que no estou ofendido, querida Gail. Pelo contrrio, estou muito lisonjeado, pois no  todo dia 
que uma mulher to bonita como voc me convida para almoar.  uma hora est bem para voc? - Desligando o telefone, ele se dirigiu a Briony: - Leia a ltima parte. 
Esqueci onde estava. - Briony tinha certeza de que ele estava mentindo. A carta era longa e complicada, mas ela leu com tima dio e, ao terminar, percebeu que 
Ken a olhava com sarcasmo. -  quase como ter meu prprio computador! Voc nunca quis descer do seu pedestal e se juntar  raa humana?
       - Contanto que ela no inclua voc - Briony respondeu com amargura.
       - Ento  assim. - Ken se aproximou dela. - No me responsabilize por tudo, Briony. Voc...
       - Eu fui tola e estpida, e voc tirou vantagem disso, no  Ken? Deus, como eu o odeio! Ver voc no fundo do poo no seria suficiente para me satisfazer!
       - E por isso que voc insiste em ficar aqui? Voc quer se vingar? Fale!
       - Estou aqui porque preciso do emprego - respondeu ela friamente. - Alm disso, acho que a chefia no ficar muito impressionada com seu novo editor se eu 
contar os verdadeiros motivos de sua ansiedade por me afastar daqui. Tenho certeza de que os jornais concorrentes adorariam essa histria. Gostaria de saber quanto 
eles pagariam por minhas declaraes.
       - Isso  uma faca de dois gumes, voc no v? Trabalhando para mim, voc se coloca sob a minha autoridade. No fica amedrontada?
       - No - mentiu Briony. - Voc j fez o pior que poderia ter feito!

       S na hora do almoo Briony conseguiu telefonar para Gina e avis-Ia de, que chegaria mais tarde.
       - Parece que voc resolveu pensar no que eu disse sobre Nicky - brincou Gina. - Espero que tenha sorte em encontrar um pai para ele.
       Briony pensou que Ken chegaria mais tarde por causa de Gail, e no fechou a porta de sua sala. Estava no meio da conversa com Gina quando ele entrou.
       - Chamada pessoal? - perguntou Ken, com sarcasmo, logo que ela desligou. -  a primeira vez que vejo um sinal de vida em voc desde que cheguei. Matt sabe 
sobre ele?
       - Minha vida particular no  da sua conta - respondeu Briony, dando as costas para ele para procurar um papel no arquivo.
       - Voc ainda usa o mesmo perfume - comentou Ken.
       - Voc ainda lembra? Ah! Os reprteres so treinados para lembrar dos mnimos detalhes, no  mesmo? Foi assim que voc conseguiu aquele furo, certo? Como 
deve ter sido cansativo ficar ouvindo os meus problemas! Mas no final voc foi bem recompensado. Como disse Gail, a histria o tornou famoso da noite para o dia. 
Fiquei surpresa com o fato de, ontem, voc no contar a todos quem eu era. Ou ser que se envergonha de revelar os meios srdidos como conseguiu aquela histria?
       - Voc no fez tudo com indiferena?
       - Eu no era indiferente quando permiti que fizesse amor comigo. Gostaria de pensar que trabalhando para voc poderia tornar sua vida um inferno, Ken, mas 
ns dois sabemos perfeitamente que voc jamais se arrependeu!
       Ken tentou toc-Ia, mas Briony se afastou. A raiva era evidente no olhar que ele lhe lanou.  claro que ele nunca se sentira atrado por ela. Ken era o tipo 
de homem que sempre seduzia todas as mulheres que queria. E como deve ter, zombado da ingenuidade dela!
       As cinco horas, Briony j havia terminado o servio e foi at o vestirio para descansar um pouco.
       - Que desperdcio - dizia uma garota para outra sem perceber a presena de Briony. - Um homem maravilhoso ao lado de Winters, que mais parece uma geladeira! 
Aposto que ela no sabe o que fazer com um homem daqueles! Basta ver como se comporta com o idiota do Matt!
       Algum a cutucou, e a garota olhou, sem graa, para Briony. Por um momento Briony teve vontade de lhe dizer o que faria com, um homem como Ken Blake, mas 
desistiu, fingindo no ter ouvido nada. Ento era aquilo que diziam dela? Muito bem! Mas que importncia tinha isso?

CAPTULO III

       Todos j estavam no barzinho quando Briony chegou. Doug a recebeu com alegria e lhe ofereceu um drinque ao mesmo tempo que lhe mostrava o buf para que se 
servisse. Pouco depois Matt se aproximou, e Briony percebeu que ele j havia bebido um pouco alm da conta.
       - Preciso falar com voc - comeou ele. - Vamos nos sentar?
       Para no criar problemas, deixou que Matt a conduzisse at uma mesa prxima ao grupo. Gail estava de p bem em frente, e o corao de Briony disparou quando 
viu Ken indo em direo a ela.
       -  Mary - confidenciou Matt. - Ela quer voltar para mim. A me dela me telefonou esta manh. Briony, eu mal posso acreditar!
       - O que voc respondeu?
       - Eu no disse nada.
       - Se voc quer meu conselho, no diga nada, pelo menos por enquanto. Tenho certeza de que Mary vai admir-Io muito mais se voc no voltar para ela imediatamente, 
Matt. Mas s voc pode tomar essa deciso. Agora com licena, preciso ir embora.
       - Fique mais um pouco e eu lhe darei uma carona, combinado?
       - Obrigada, Matt, mas eu realmente no posso - disse ela, levantando-se para procurar Doug.
       - No me diga que voc j vai? - Doug no disfarou seu aborrecimento.
       - Sinto muito, mais preciso ir, acredite.
       Gail e Ken haviam se juntado ao grupo no bar, e Briony sentiu que enrubescia quando ouviu Gail comentar:
       - Um namorado? Que surpreendente! Quem  ele? Acho que podemos adivinhar, no?
       Ela olhava para Matt enquanto falava, e Briony teve vontade de dizer-lhe toda a verdade.
       - Que tal um beijo de boa sorte? - Doug sugeriu num tom de brincadeira. Briony sabia que se recusasse o pedido iria mago-Io. Inclinando-se, ela o beijou 
no rosto enquanto os outros aplaudiam. Como se percebesse quanto esse gesto havia sido difcil para Briony, Doug exclamou: - Obrigado, meu anjo. Seja paciente com 
Ken, pois voc sabe que ele no  como eu.
       - Infelizmente. - A palavra escapou antes que ela pudesse notar, e Doug no fez comentrio algum porque Matt acabava de chegar perto deles.
       - Vou lev-Ia para casa, Briony.
       Ela procurou se afastar, mas Matt a impediu. Ele j estava bastante alterado e comeava a se tornar inconveniente.
       - Parece que voc passou da conta na bebida, companheiro - interrompeu Ken calmamente, procurando det-Io.
       Matt empurrou-o e, por um momento, Briony sentiu medo ao perceber o olhar irritado de Ken.
       - Vou levar Briony para casa, est decidido - disse Matt.
       - Eu a levarei. Voc no tem a mnima condio de dirigir, rapaz! Acho at melhor voc nos dar as chaves do seu carro, a menos,  claro, que esteja planejando 
passar o resto da noite com Briony. - Houve um silencio eletrizante quando Briony olhou para Ken com profunda irritao. - No?  uma surpresa! D-me suas chaves, 
e Gail o levar para casa com segurana, no , Gail?
       Gail ficou surpresa e sentiu-se um pouco humilhada. Com certeza ela esperava esticar o programa com Ken e por isso encarava Briony com evidente hostilidade. 
       - No quero que ningum me leve para casa - disse Briony, decidida. - Sou perfeitamente capaz de ir sozinha.  Bem, tenho de ir agora seno perderei o nibus. 
       - Voc no vai andar sozinha pelas ruas a esta hora da noite. - Ken a segurou pelo brao.
       - Aqui no  Nova York - ops-se Briony, tentando pr fim quela discusso.
       - Voc sabe que ele est certo, Briony - interveio Doug. - No  seguro sair desacompanhada  noite aqui em Londres.
       Parecia que todos conspiravam contra ela, mas a violncia nas ruas era um fato e seria tolice ignor-Ia. At mesmo Matt acabou concordando com a deciso de 
Ken e entregou as chaves para Gail. Ken no largou o brao de Briony e, enquanto eles se despediam dos outros, ela disse:
       - Realmente no h necessidade. Alm disso, voc nem sabe onde moro. Eu posso tir-Io do seu caminho.
       - Eu sei o seu endereo. Olhei no registro de funcionrios. Agora, seja boazinha e fique quieta, certo? - O carro no estava estacionado muito longe dali, 
mas Ken continuou a segur-Ia. Quem os visse assim poderia pensar que eram conhecidos ntimos... Ela estava to envolvida nos pensamentos que nem reparou quando 
Ken parou junto a um carro cinza que parecia bastante veloz. - Entre - disse ele, abrindo a porta para que Briony se acomodasse. Ela estremeceu quando Ken entrou 
no carro e se aproximou para apanhar o cinto de segurana. - O que pensou que eu fosse fazer? Ceder  violenta tentao e fazer amor com voc?
       - No seja ridculo! - exclamou ela com indiferena.
       Ken no a tocou enquanto prendia o cinto, mas Briony sentia a presena dele intensamente, o que tornou vivas em sua mente recordaes havia muito apagadas.
       Ken deu a partida no carro e saiu. Olhou para Briony uma ou duas vezes, mas, como ela se recusasse a olh-Io, ligou o toca-fitas. 
       - Ainda est aborrecida porque eu atrapalhei seu romance? - perguntou Ken. - Voc sabe que ele  casado, no? Conte-me a verdade, voc o ama?
       - No  da sua conta! .
       - Claro que . Vocs dois fazem parte da minha equipe. Casos de amor no trabalho acabam atrapalhando o desempenho profissional!
       - E voc teme que meu "caso" com Matt possa afetar meu servio - disse ela, com doura. - Pois bem, no se preocupe, isto no acontecer.
       - Espero. Realmente, ele no parece o tipo de homem que consegue manter uma mulher satisfeita, quanto mais duas. 
       O comentrio deixou-a furiosa, e Briony esqueceu-se completamente do firme propsito de no discutir mais com ele.
       - O que eu sinto por Matt no  da sua conta e no quero falar sobre isso, entendeu bem? Eu prefiro continuar a p.
       Ela procurou a maaneta da porta, e Ken soltou um palavro, brecando o carro violentamente. Ele a segurou pelos braos e a sacudiu com raiva.
       - Nunca mais tente fazer isso, sua... O que voc ia fazer? Pular do carro? Caso no tenha percebido, ns estvamos a oitenta quilmetros por hora. Voc sabe 
o que pode acontecer a essa velocidade? No sobraria nada de voc nem para contar a histria!
       - Pare com isso! - A cabea de Briony latejava de susto e medo. 
       Na verdade no pretendia abrir a porta, mas o nervosismo foi tanto que ela acabou se descontrolando, agindo automaticamente. Ken a soltou e continuou o percurso 
em silncio. Briony ouviu um barulho e, quando o olhou confusa, ele explicou friamente:
       - Acionei um sistema automtico de travas de segurana para as portas. Se voc insiste em se comportar como uma criana, precisa ser tratada como tal. Ou 
est pensando que se voc se matar na minha frente me deixar com remorso? - Briony teve vontade de lhe dar um tapa na cara, mas contentou-se em dirigir-lhe um olhar 
de desprezo. Ken s lhe perguntou o caminho uma vez, logo que eles saram da estrada principal para entrar na rua em que ela morava. Quando o carro parou em frente 
a casa, Briony ficou satisfeita por j estar escuro e por Gina e Paolo no poderem ver quem a acompanhava. Ela se voltou para abrir a porta, esquecendo que estava 
trancada. - Oh, no, voc no vai sair. No assim com essa pressa. Ns temos muito o que conversar! Voc pensa que pode continuar me tratando desse jeito? Eu no 
sou Matt, Briony.
       - Eu sei - respondeu ela, fria. - Sei exatamente que tipo de homem voc , Ken. Sdico, mentiroso, completamente insensvel. Preciso continuar? Mas no se 
preocupe, sua reputao estar a salvo. O grande e inteligentssimo reprter que conseguiu um furo de primeira pgina e chutou a tola que o ajudou, deixando-a sozinha 
para enfrentar todas as acusaes!
       - No foi bem assim - disse, segurando-a pelos braos. - Eu... que inferno! - Ele a afastou. - No coloque toda a culpa em mim, Briony. Voc tambm teve uma 
participao nisso tudo, embora prefira esquecer. No foi s culpa minha.
       - Deixe-me sair deste carro! Acho que voc  a pessoa mais desprezvel que j conheci! Oh, pelo amor de Deus, no me toque! - Briony gritou, tentando afastar-se 
enquanto ele a mantinha presa, desafiando-a com o olhar.
       - Vamos, me bata. - Deu um sorriso desdenhoso.
       Ela lutava para se livrar, mas seus movimentos agitados apenas a aproximavam mais dele.
       - Eu odeio voc!
       No queria que Ken a tocasse, no poderia resistir. Desde que ele a deixara, ningum mais havia encostado nela, e s vezes Briony achava que se algum o fizesse 
ela no suportaria. Sentia medo de que os sentimentos h tanto tempo abafados de repente viessem  tona e a levassem novamente quela exploso de desejo que dividira 
com Ken. Ela se recusava a aceitar que era seu amor por Ken que a deixava totalmente desarmada.
       - Dizem que o dio e o amor andam juntos - Ken falou num tom de gozao.
       - Amor! S o pensamento de t-Io ao meu lado me deixa com nuseas.
       -  o que est acontecendo agora? - No mesmo instante Briony ficou tensa. Tentou se afastar quando ele inclinou a cabea em sua direo, mas Ken prendeu o 
rosto dela entre as mos, beijando-a com raiva. Briony sentiu-se desesperada diante do domnio daqueles lbios. Quando Ken soltou sua cabea, ela pensou que havia 
vencido. Cruelmente, porm, ele colocou a mo pela abertura da blusa dela, acariciando-lhe os seios com brutalidade. Essa aproximao no lhe trouxe recordaes 
insuportveis como ela imaginava que fosse acontecer. No entanto, sabia que Ken estava apenas tentando puni-Ia e humilh-Ia com toda aquela violncia. O pnico fazia 
Briony lutar com todas as foras, mas Ken a subjugou facilmente. Sua blusa estava aberta, e ela fechou os olhos com horror quando pressentiu a inteno de Ken. Sentindo 
o peito dele contra o corpo enquanto tentava afast-Io, Briony soltou um gemido fraco que fez com que Ken a soltasse. - No precisa desmaiar. Voc no  nenhuma 
herona frgil - comentou Ken. - Meu Deus, parece ser verdade o que andam comentando. Voc est fria como gelo!
       - Voc me fez ficar assim! O que estava esperando? Que eu casse em seus braos com gritos de xtase? Deixe-me sair daqui! - Uma terrvel inrcia tomava conta 
de seu corpo inteiro.
       Desta vez, quando Briony procurou a maaneta, a porta se abriu instantaneamente. Ela no conseguiria encarar Gina e Paolo e por isso foi primeiro para seu 
prprio apartamento. Olhando-se no espelho, viu os cabelos despenteados, a boca machucada e o colo todo marcado. Tremendo de desgosto, Briony arrancou a blusa e 
o suti, jogando-os no lixo. No queria mais senti-los junto  pele. Tomou uma ducha fria, o que no a deixou menos angustiada e aturdida. Queria apenas se deitar, 
mas tinha medo de pensar em tudo o que havia acontecido. Por isso, com esforo, vestiu-se e penteou os cabelos antes de ir buscar Nicky. Apesar de tentar disfarar, 
ela sabia que Gina havia notado sua boca machucada, embora a amiga no tivesse feito comentrio algum.
       - Desculpe, cheguei um pouco tarde. Est tudo bem?
       - Tudo bem! E voc, como est? No me parece muito disposta - comentou Gina, preocupada.
       - Estou com dor de cabea, s isso. - Era verdade. Sua cabea latejava, e ela no parava de tremer, mesmo no estando com frio.
       Paolo insistiu em carregar Nicky para baixo.
       Nicky tem sorte!, pensou Briony. Se a vida dela fosse to simples quanto a dele!

       De madrugada, Briony teve um pesadelo terrvel. Nicky estava chorando, e ela tentava ir at ele mas no conseguia se mover pois algo a segurava. Desesperada, 
procurava em vo se soltar e gritava para que o filho a esperasse: De repente, se voltou e o rosto que viu era o de Ken; frio e zombeteiro.
       - No! - gritou, abrindo os olhos. 
       O quarto rodava e ela sentiu uma nusea muito forte quando tentou levantar a cabea do travesseiro. Enxaqueca! H tempos que no tinha uma crise, e, dessa 
vez, a causa era evidente. Olhou para o relgio sabendo que no poderia ir trabalhar, pois as crises costumavam ser violentas. Quando tentou alcanar o telefone 
para ligar para o jornal, ela ouviu Gina abrir a porta do apartamento e correr para o quarto.
       - Voc est doente? O que aconteceu? Alguma coisa grave?
       - Uma enxaqueca pavorosa! Estava tentando ligar para o escritrio.
       - Deixe que eu fao isso. Onde est o remdio?
       Depois de tomar os comprimidos, Briony comeou a se sentir sonolenta e desejou que no dia seguinte estivesse totalmente recuperada. No fim da tarde acordou 
sem dor de cabea, mas ainda sentia-se bastante zonza. 
       Quando bateu  porta de Gina, foi recebida alegremente por Nicky, que queria saber se ela estava melhor. A amiga insistiu para que ela e o filho jantassem 
com eles.
       - Voc tem trabalhado muito - disse. Gina. - Alm do mais, esse calor tambm no colabora. - Estava realmente muito quente, mas Briony sabia que o clima no 
era o responsvel por seu mal-estar. - Falei com seu chefe. Ele ficou muito preocupado quando eu disse que voc estava doente.
       - Voc mencionou Nicky? .
       - No - Gina respondeu sem entender a razo da pergunta.
       -  que as pessoas no escritrio no sabem que tenho um filho.
       Embora Gina tivesse aceito a explicao, Briony percebeu, que ela ficara bastante curiosa e rezou para que no surgisse a oportunidade de a amiga conhecer 
Ken. Nicky no parava de falar quando Briony o colocou na cama, e sentiu-se orgulhoso ao contar para a me como no havia sido medroso quando Paolo o jogara para 
o ar, numa das brincadeiras de costume.
       - Por que no tenho um pai? - ele perguntou subitamente.
       - Voc tem a mim - respondeu Briony. - No  o bastante, filhinho?
       - Eu queria um pai tambm. Voc no pode brincar comigo como um pai.
       Briony conseguiu distra-Io falando dos ursos que iriam ver no zoolgico, mas no poderia fazer isso pelo resto da vida. Pela primeira vez ocorreu-lhe que 
Nicky poderia ficar magoado imaginando que ela rejeitara o pai dele. No conseguiu conter as lgrimas ao pensar nisso. Se Nicky fosse adulto, poderia lhe explicar 
tudo, mas talvez j fosse muito tarde... 

CAPTULO IV

       O dia amanhecera bonito, e Briony vestiu Nicky com a roupa que a me de Gina havia presenteado no Natal. Na poca ficara um pouco grande, mas agora servia 
perfeitamente, e Briony se sentiu orgulhosa ao v-Io crescendo. Paolo trabalhava para um tio que dirigia uma firma de importao de vinhos em Londres e, como no 
folgava aos sbados, ofereceu-Ihes uma carona a caminho do trabalho.
       Nicky adorava passear de carro e a cada instante chamava a ateno da me, maravilhado com as paisagens diferentes que iam surgindo pelo caminho. 
       O zoolgico estava cheio, e Nicky se divertiu bastante.
       Quando Briony viu o comportamento das outras crianas, pde perceber quanto Nicky era comportado. Ele olhava para os animais com sincera admirao, atraindo 
sorrisos dos adultos que o observavam. Como ela imaginava, Nicky acabou ficando exausto e, ao subirem no nibus que os levaria de volta, ele adormeceu em seu colo. 
O dia ainda estava quente. Gina tinha ido passar a tarde com alguns amigos que moravam do outro lado de Londres.
       Depois de pr Nicky para dormir, Briony colocou um biquni e deitou-se na grama do jardim. O livro que levou para ler era pouco interessante e logo sentiu-se 
sonolenta. Fechou os olhos e adormeceu imediatamente. Acordou com o pressentimento de que no estava mais sozinha.
       - Gina?
       - Acho que no - respondeu uma voz masculina.
       - Ken! - ela exclamou, assustada, enquanto tentava compreender o motivo daquela visita inesperada.
       Ele estava usando jeans e uma camisa de algodo aberta no peito e segurava os culos escuros dela.
       - Voc esqueceu isto no carro. Deve ter cado de sua bolsa.
       Ele observou demoradamente o corpo de Briony, e ela tentou no se mover. Depois do nascimento de Nicky, os seios tinham ficado mais cheios, e a cintura e 
os quadris continuavam bem-feitos.
       - Voc poderia ter esperado at segunda-feira para devolv-Ios. Ou quis se certificar de que minha enxaqueca era real e no uma desculpa para faltar ao trabalho?
       Enquanto falava, olhou instintivamente para o quarto de Nicky e, no mesmo instante, baixou a voz. Ela nem ousava pensar no que aconteceria se o filho de repente 
acordasse e os visse juntos.
       - No seja estpida. - Seu olhar se dirigiu para os lbios de Briony que ainda estavam inchados. Quando ela se mexeu, notou que Ken tinha empalidecido. O 
biquni deixava  mostra as marcas que os dedos dele haviam feito quando haviam discutido na noite anterior. - Eu fiz isso?
       - Voc ainda duvida? Acha que eu gosto de ser agarrada  fora?
       - No sei se gosta, mas, se for assim, Matt no deve satisfaz-Ia - ele disse, com ironia. - Voc prefere o estilo dele? 
       - Talvez seja mais agradvel. Quem sabe...
       Antes que Briony pudesse evitar, Ken a agarrou fortemente pela cintura.
       - Ento vamos experimentar. Assim voc tira suas dvidas...
       Ele a segurava pela cintura quando Briony ouviu um barulho no porto. Seu corao disparou ao ver que Gina e Paolo fitavam os dois com surpresa. Uma olhada 
para o rosto de Gina foi suficiente para confirmar as suspeitas da amiga em relao ao pai de Nicky. Ela fez uma rpida apresentao, ficando surpresa quando Ken 
se inclinou para pegar Caterina, que o olhava admirada. 
       - Eu vim at aqui para devolver os culos que Briony esqueceu no meu carro na quinta-feira  noite e esperava tomar alguma bebida refrescante.
       Ele j tinha planejado entrar; Briony, porm, no podia convid-Io. Percebendo a ansiedade dela, Gina disse:
       - Eu fiz uma limonada antes de sair. Por que ns no vamos at minha casa? .
       - Primeiro vou me vestir - disse Briony, ansiosa para escapar e verificar se Nicky ainda dormia.
       Por sorte ele estava mergulhado num sono profundo e Briony deu-lhe um beijo no rosto. Colocou um vestido de algodo, tentando imaginar uma forma de se livrar 
de Ken o mais rpido possvel. Quando chegou ao apartamento dos amigos, Ken e Paolo conversavam sobre carros. Gina comeou a contar o passeio feito quando Caterina, 
que antes estava distrada com alguns brinquedos, assustou Briony olhando para Ken e dizendo claramente "Nicky". .
       - Quem  Nicky? - perguntou ele. - Parece que ele tem grande amizade com Caterina.
       -  um menino com quem ela est acostumada a brincar - disse Gina rapidamente. - Ela est comeando a falar e por enquanto todos os homens se chamam "Nicky".
       Briony no conseguiu dizer mais nada depois daquele momento angustiante. Se Nicky tivesse aparecido na sala chamando Ken de pai, ela no teria ficado to 
assustada. Ken foi embora logo depois, e Paolo acompanhou-o para ver o carro dele. Quando eles saram, Briony ficou na janela, olhando para o jardim.
       - Ele  o pai de Nicky, no ? - perguntou Gina. Briony manteve-se calada. No adiantava mentir. - Ele sabe? - Gina continuou antes que Briony pudesse responder. 
-  claro que no. Voc o apresentou como seu chefe!
       -  uma histria muito longa...
       Elas eram amigas sinceras, mas mesmo assim Briony no teve coragem de contar toda a verdade. Tentando escapar, disse a Gina que Nicky deveria estar acordando. 
       - Ainda bem que ele no acordou antes - ela desabafou.
       - Talvez tivesse sido melhor que ele acordasse e encontrasse Ken - respondeu Gina. - Nicky precisa do pai.

       Briony rebatia a mesma carta pela terceira vez e com desnimo a tirou da mquina.  Ken estava de pssimo humor e parecia piorar mais a cada dia. Ele a obrigava 
a trabalhar at mais tarde e, quando Briony chegava em casa, Nicky j estava dormindo. Ela havia procurado outro emprego, mas o momento no era favorvel e acabou 
no encontrando nada. No passava um s dia sem que ele fizesse um comentrio malicioso com reao a Matt.
       Naquele momento, Ken havia sado para resolver um problema com o ttulo de um dos artigos. Briony sentia-se cansada por causa do calor e do trabalho intenso 
e, alm disso, no estava se alimentando bem. Desde a chegada de Ken, tinha perdido o apetite. Achava que ele agia dessa forma hostil para que acabasse cedendo e 
pedisse demisso, mas ela no desistiria to facilmente.
       O telefone tocou, e Briony empalideceu ao perceber o nervosismo de Paolo, do outro lado da linha. No incio ela no entendeu o que ele dizia, mas, quando 
compreendeu, deixou o fone, cobrindo o rosto com as mos. A porta se abriu e Ken entrou, assustando-se ao ver a palidez de Briony.
       - Santo Deus, o que est acontecendo? - ele perguntou, olhando para o telefone.
       Briony pegou a bolsa e tentou ficar de p. 
       - Eu preciso ir... - Ela estava sobressaltada e tremendo.
       - Sente-se! - ordenou Ken, forando-a a obedecer.
       - Eu tenho de ir... Nicky precisa de mim. - As lgrimas escorriam por seu rosto.
       Ken apanhou o telefone.
       - Aqui  Blake. O qu... Paolo? - Ele olhou para Briony. - Est bem, deixe tudo comigo - disse friamente. - Qual  o hospital? - E, desligando o telefone, 
encarou-a. - Ento Nicky  seu filho? Meu Deus, claro,  por isso que voc no quer que Matt volte para a esposa. Por que esse idiota no se decide e escolhe uma 
das duas?

       Briony nem ouviu as palavras de Ken. Desde que Paolo explicou que Nicky estava no hospital, ela s conseguia pensar nisso. Tinha certeza de que um dia isso 
acabaria acontecendo, pensou com tristeza, imaginando Nicky sozinho, sem os cuidados dela.
       - Eu preciso ir - disse ela, passando por Ken para sair.
       - Desse jeito? 
       Ela olhou para ele, mal podendo enxergar. Conseguiu apenas dizer vagarosamente:
       - Eu j datilografei as cartas. At logo!
       - O qu? Eu no quero saber das cartas - gritou Ken. - Voc j chamou um txi?
       Ela respondeu que no, e ele pegou o telefone discando os nmeros com raiva. Falou alguma coisa e desligou, pegando o brao de Briony.
       - Meu carro est l fora. Vamos.
       - No quero ir com voc.
       - No seja to estpida - disse Ken, puxando-a. - Seu filho est no hospital. O importante  voc chegar o mais rpido possvel at ele ou prefere que eu 
chame Matt? - Como Briony no respondesse, ele a conduziu pelo corredor, parando na recepo para avisar que iam sair. Com o choque, ela at se esqueceu de perguntar 
o endereo do hospital e depois de algum tempo reconheceu que, sem a ajuda eficiente e rpida de Ken, no teria conseguido foras para enfrentar a situao. Foi 
apenas quando parou o carro no estacionamento do hospital que ele disse: - Ningum no jornal sabe de seu filho? Voc deve ter muita considerao por Matt para manter 
esse segredo. Ainda acredita que ele se preocupa com voc? Ele lhe deu um filho e no se divorciou da esposa at hoje. O que voc est esperando?
       As lgrimas escorriam pelo rosto dela. Como uma criana, Briony deixou que Ken a ajudasse a sair do carro. Gina a esperava com o rosto plido. 
       - Ele caiu da macieira - ela explicou, desesperada.- Eu sa por um instante para pagar o leiteiro e quando voltei ele tinha cado. Parece que quebrou o brao.
       Foi Ken quem a tranqilizou dizendo que isso podia acontecer com qualquer um.
       - Voc no pode vigi-Ios o tempo todo, Gina. Acalme-se, est bem?
       Gina havia deixado a filha com uma vizinha e olhou para Briony sem saber quem precisava mais dela, se Caterina ou a amiga. Ken percebeu o embarao de Gina 
e acrescentou:
       - Eu fico com Briony. Voc pode ir para casa e ficar com sua filha.
       A sala de espera estava vazia. Briony olhava para uma das portas quando a enfermeira apareceu.
       - Sra. Winters? - ela perguntou com um sorriso. - Seu filho passa bem. Ele quebrou o brao, mas j est sendo engessado. Ns lhe demos uma injeo apenas 
por precauo. Se a senhora e seu marido quiserem me acompanhar... - Briony ia corrigir o engano, porm a moa j havia se adiantado no corredor, esperando que eles 
a acompanhassem. - Seu filho se parece muito com o senhor - comentou a enfermeira. - E alm do mais  muito corajoso. Nem chorou!
       Briony quase perdeu o flego, mas Ken a fez seguir em frente. Nicky estava na enfermaria, sentado numa pequena cama, e quando viu a me seu rosto se iluminou.
       - Eu ca da rvore e por isso engessaram meu brao, mame. - O menino parecia bem, mas Briony precisava peg-Io no colo para certificar-se disso. Ele se contorceu 
impacientemente quando ela o abraou. Olhando para Ken, Nicky perguntou: - Quem  ele?
       Ken olhava para Nicky sem conseguir acreditar. Briony sabia que agora ele no faria mais comentrio algum sobre Matt ser o pai da criana. Ignorando a pergunta 
do filho, Briony se dirigiu  enfermeira:
       - Ele pode ir para casa? 
       - Claro! O mdico quer apenas lhe dar algumas instrues de como cuidar dele. A senhora sabia que o tipo sanguneo de seu filho no  muito comum?
       Briony sabia e suspeitava que Nicky tivesse herdado isso do pai, uma suspeita que a expresso de Ken confirmou. A enfermeira foi atender uma criana que estava 
chorando, e eles ficaram sozinhos.
       - Meu Deus, por que voc no me contou? Ele  meu filho e voc no me diz nada!
       - Ele no ...
       - No minta, Briony. Ele  meu filho! S um cego diria o contrrio. Ns temos muito o que conversar, no pense que vai se livrar dessa facilmente. Voc me 
deve algumas explicaes.
       A chegada do mdico interrompeu a conversa. Em vez de dirigir-se a Briony, o mdico deu todas as instrues a Ken. Por causa da semelhana entre pai e filho 
seria intil negar o parentesco. O fato de Ken ter chegado ao escritrio naquele momento em que estava atnita e desorientada ainda a intrigava. Quando Paolo lhe 
disse que Nicky estava hospitalizado, ela simplesmente no conseguiu enxergar mais nada. Era irnico imaginar que, se no fosse por isso, Ken nunca teria descoberto 
a verdade. O mdico terminou de falar, e Briony se abaixou para pegar Nicky.
       - Deixe que eu o levo - disse Ken. - Ele  muito pesado para voc.
       - No!
       - Pelo amor de Deus! Eu no vou arranc-Io de seus braos e sair correndo. Que tipo de homem voc pensa que eu sou? - Os olhos dela responderam. S porque 
Nicky era to precioso para ela no significava necessariamente que Ken sentisse o mesmo; mas, quando ele viu Nicky, Briony ficou apavorada diante de sua fisionomia 
alterada. Nicky entusiasmou-se ao ver o carro estacionado na frente do hospital. Ken segurou-o enquanto Briony se sentava, e depois colocou-o no colo dela. - Est 
bem, filho? - ele perguntou, fechando a porta. Ela estava muito preocupada com Nicky para prestar ateno ao caminho e, quando deu por si, Ken estacionava o carro 
em frente a um prdio. Briony olhou furiosa para ele. - Ns temos muito o que conversar - Ken disse suavemente.
       Briony estremeceu. Por um instante ele pareceu irritado e nervoso o suficiente para mat-Ia.
       - Eu quero ir para casa.
       Ele saiu do carro e abriu a porta.
       - Vamos, saia! - Eles j estavam no elevador quando Ken falou novamente. Nicky perguntou onde estavam e pareceu ficar satisfeito com a resposta de Briony 
de que conheceriam o apartamento do sr. Blake. - Vou lhe dizer uma coisa importante. Pelo menos voc se preocupa com a criana - Ken comeava a acalmar-se.
       - Muito mais do que voc poderia imaginar!
       O apartamento de Ken era grande e confortvel. Ele colocou-os  vontade antes de ir para a cozinha, de onde voltou com caf e suco de laranja. Nicky aceitou 
o suco alegremente. No carro ele tinha ficado quieto, e Briony suspeitou que fosse por causa do trauma do acidente. Agora ele estava sentado no colo dela, parecendo 
encabulado.
       - Voc tem filho? - Nicky perguntou, dirigindo-se a Kel1.
       - Sim - Ken respondeu com suavidade.
       Nicky continuou:
       - Eu no tenho pai. Mas eu quero um, no , mame?
       Briony pensou que fosse desmaiar.
       - Bem, vamos ver o que podemos fazer sobre isso, fIlho. Por que no dorme um pouquinho enquanto eu e sua me conversamos?
       - Voc no devia ter falado aquilo com ele! - Briony exclamou com raiva depois que ele colocou Nicky na cama. Para surpresa dela, o menino no teve medo de 
dormir num quarto estranho. - Ele ainda  muito criana para entender por que no tem pai...
       - E tambm  muito criana para esquecer que no teve um at agora - respondeu Ken, com a voz entrecortada.
       - O que voc est querendo dizer?
       - Nicky  meu filho, Briony, e voc no pode negar.
       - Voc  pai, mas no tem nenhum direito sobre ele.
       - No? Eu gostaria de saber a opinio de um juiz a respeito disso. Ele precisa de um pai. At voc pode perceber isso.  evidente!
       - Voc no vai tir-Io de mim! 
       - Espero no precisar chegar a tanto! - O que se passava na cabea daquele homem? O que ele iria lhe pedir? Direito de visit-Io? Ela seria obrigada a dizer 
que nunca permitiria que Nicky ficasse dividido entre eles.  - Ns podemos casar e dar-lhe uma famlia.
       O choque a deixou muda por um instante.
       - Casar? - perguntou ela, quando recuperou a fala. - Depois do que voc me fez? Nunca!
       - Eu lhe dei Nicky - disse ele, com suavidade. 
       Ela se afastou de Ken, demonstrando nervosismo.
       - Nicky e eu no precisamos de voc.
       - Voc, pode ser que no, mas ele precisa de um pai.
       - Ento eu encontrarei um para ele! - gritou Briony, assustando-se quando ele agarrou a mo dela. 
       Havia cometido um erro ttico, e os olhos de Ken revelavam uma frieza profunda. Ele nunca deixaria que ela desse um padrasto ao filho dele.
       - Voc seria capaz disso s para me contrariar, no ? Nicky  meu filho, e eu o quero o suficiente para ficar com voc, mas, se voc no concorda, encontrarei 
outra me para ele. Uma que fique em casa cuidando dele para no cair de rvores. Em casos de custdia, o juiz se preocupa primeiro com o bem-estar da criana. Eu 
posso lhe dar a segurana de um lar, de um pai e uma me. Ele no sofreria por ser deixado com vizinhas enquanto a me vai trabalhar. Tenho certeza de que voc no 
precisa usar muita imaginao para saber a favor de quem o juiz ficar - Ken disse, com raiva.
       Como ele podia ser to cruel e mesquinho? Ela sentiu um n na garganta, mas tentava manter-se calma para vencer a batalha pelo filho. Precisava usar argumentos 
lgicos e claros.
       - At hoje voc nem mesmo sabia da existncia dele - insistiu ela. - Como voc pode afirmar que o quer?
       - Voc no o quis no momento em que o viu?
       A expresso de Briony a traa.
       - Eu nunca teria deixado que ele nascesse se soubesse que isso ia acontecer! - ela exclamou, com amargura, ficando chocada quando Ken a sacudiu com violncia.
       - Nunca mais quero ouvi-Ia falar desse jeito! - Ele estava furioso. - Se voc estivesse falando srio, eu a poria daqui para fora na mesma hora... e ficaria 
com o meu filho! - Tal injustia a deixou revoltada. Ele havia gerado Nicky sem o saber e agora ousava acus-Ia de me irresponsvel. - Case comigo, Briony - disse 
ele, com voz firme. - Caso contrrio, tomarei minhas providncias.
       - D-me algum tempo. - Ela estava exausta. - Eu farei o que for melhor para Nicky. Ter pais que brigam o tempo todo no  o ideal! Voc tambm pensa assim, 
Ken?  lgico que pode ver que o casamento entre ns no ser o melhor para Nicky.
       Ao ouvir um barulho, Briony olhou para o quarto, mas Ken chegou primeiro e, quando ela entrou, ele j estava sentado perto de Nicky. O garotinho parecia srio 
e confuso. Sua voz saiu um pouco trmula ao pronunciar o nome da me, aconchegando-se a ela quando Briony o tomou nos braos. O garotinho pressionou o rosto contra 
o peito dela ignorando a presena de Ken, e por um momento ela se sentiu triunfante, por Nicky t-Ia procurado em vez de buscar o pai.
       - Fique sabendo que eu no estou brincando - avisou-a Ken, calmamente, enquanto ela se levantava com Nicky nos braos. - Quero sua resposta amanh. Se preferir, 
tire uma folga no trabalho, assim voc no poder dizer que no teve tempo suficiente para pensar.

       Ela estava absorta durante todo o caminho de volta a casa, e foi apanhada de surpresa quando o carro parou, e Ken abriu a porta para Nicky, que pediu para 
que ele o carregasse. O que mais a deixou furiosa foi o fato de Ken no se mostrar triunfante, erguendo o menino com naturalidade e com um sorriso que foi imediatamente 
retribudo por Nicky.
       - No pense em fugir de mim, Briony - Ken avisou, colocando Nicky na cama.
       Ele a seguiu at a sala de visitas, lanando-lhe um olhar inflexvel.
       - Esta tarde voc pensou que Nicky era filho de Matt - ela recordou, com amargura.
       - Mas agora sei que  meu e quero dar a vocs dois a minha proteo.
       - Que maravilha, no? Mal posso acreditar! - Briony disse, com raiva. - S que ns no precisamos de voc, Ken. E quando eu precisei, voc no estava por 
perto. 
       - Eu no sabia que voc estava grvida! - ele gritou, plido. - Eu j tentei lhe dizer...
       - E eu no quero ouvir - ela interrompeu-o, com os olhos cheios de dio. - Por que voc no nos deixa em paz? Nicky e eu somos felizes assim.
       - Talvez voc seja feliz, mas, e Nicky? Uma criana precisa de pai e me, Briony, e se voc for honesta consigo mesma admitir que tenho razo. Como voc, 
eu tambm s quero a felicidade dele. No momento em que o vi e soube que era meu filho, compreendi que no poderia deix-Io sair da minha vida.
       - Mesmo considerando que voc entrou naquele apartamento apenas para encontrar as provas de que precisava para incriminar James Myers - ela concluiu, com 
amargura. - Ah, saia daqui, seu... seu hipcrita!
       Depois que ele se foi, ela ficou sentada, olhando o vazio e tentando chegar a uma concluso de tudo o que havia acontecido, sem perceber que j estava escuro. 
Ken no havia feito ameaas em vo, ela bem o sabia. Ele lutaria para conseguir o filho e certamente nenhum juiz ficaria do lado de uma me que trabalhava fora quando 
o pai poderia dar uma casa luxuosa e uma madrasta dedicada. Quem ele teria em mente? Gail? Pouco provvel! Ela no gostava de crianas. Mas, com certeza, no faltariam 
mulheres que quisessem se casar com ele. Uma leve batida na porta a assustou e, a princpio, ela pensou que fosse Ken. Mas quando abriu a porta viu Gina com os olhos 
vermelhos de tanto chorar.
       - Oh, Gina, no foi culpa sua! - exclamou Briony, recriminando-se por no ter ido antes ao apartamento da amiga. Ser que Gina ainda pensava que ela a culpava 
pelo acidente? - Eu deveria ter ido v-Ia, mas tinha algo importante a resolver. Ken quer casar comigo por causa de Nicky - disse repentinamente, sem saber por que 
sentia necessidade de confiar em algum. 
       Gina ficou aliviada.
       - Oh, Briony! Finalmente ouo boas notcias! Quando voltamos do hospital, o pai de Paolo estava ao telefone. O irmo do meu marido ficou seriamente ferido 
num acidente de automvel e meu sogro quer que voltemos imediatamente. Com Cesare no hospital no h ningum para cuidar das vinhas, e eu tinha receio de lhe dizer 
que precisaremos partir. - Briony sentiu um aperto no corao ao ouvir aquilo.  claro que Gina e Paolo teriam de voltar para a Itlia, mas quem cuidaria de Nicky? 
Como ela poderia sair para trabalhar se no tinha ningum de confiana para olh-Io? Ele ainda era muito pequeno para ir para uma escolinha mesmo que existisse uma 
nas proximidades. A nica alternativa seria encontrar uma bab mas ela preferia que Nicky crescesse em ambientes familiares, e foi por isso que ficou contente quando 
Gina e Paolo ocuparam o apartamento. Tambm poderia colocar um anncio  procura de outro casal, mas isso levaria tempo. E, se achasse algum, Nicky no se acostumaria 
to facilmente com eles. - Casar! - exclamou Gina, com romantismo. - Oh, isso  to bom. Eu logo vi que ele no iria desamparar o prprio filho. Vocs brigaram, 
no? E o orgulho no deixou que voc lhe falasse sobre o beb. Paolo ficar satisfeito! Ns estvamos to preocupados em lhe contar...
       Briony compreendia perfeitamente a situao da amiga. Porm, no conseguiu encontrar as palavras para dizer a Gina que no queria se casar com Ken. No havia 
outra sada. Ken tinha deixado bem claro que pretendia ter o filho sob o teto dele, mesmo que para isso precisasse destru-Ia.

CAPTULO V

       - Ento a resposta  sim?
       Ken estava de costas para ela, olhando na direo do jardim. Ele chegara quando Briony colocava Nicky na cama. Por causa do brao quebrado, o menino tinha 
ficado dentro de casa o dia todo e os brinquedos estavam espalhados pela pequena sala de visitas. Briony resolveu tomar um banho e relaxar, mas ouviu um carro parando 
do lado de fora.
       Ela no havia dormido na noite anterior, por isso estava tensa e muito abatida. Ken pde perceber as olheiras profundas e a expresso desanimada de Briony 
atravs do vidro da janela. Quando finalmente a fitou, ela sentiu uma vontade forte de pegar Nicky nos braos e fugir para bem longe dali... Mas foi pensando na 
felicidade do filho que decidiu aceitar a proposta de Ken. No podia deliberadamente privar o filho da figura paterna. Sabia que mais tarde ele no a perdoari se 
isso acontecesse. At ento ela s tinha se preocupado com o bem-estar de Nicky e, embora no desejasse aquele casamento, precisava reconhecer que haveria certas 
vantagens... seu filho teria a segurana material to sonhada por ela e uma vida muito mais confortvel.
       Se Gina e Paolo no fossem partir, Briony teria encontrado coragem para desafiar Ken. Mas, sem a ajuda deles, seria impossvel dar a Nicky a base estvel 
de amor e segurana que toda criana devia ter. O que mais a atormentava era o medo de que Ken conseguisse tirar Nicky dela judicialmente.
       - S estou concordando por causa de Nicky - ela disse, com amargura. .
       - E claro! - O tom irnico de sua voz a deixou preocupada.
       Durante todo o dia Briony esperou angustiada que o momento decisivo chegasse. Agora, Ken estava  sua frente observando-a intensamente, sem que ela conseguisse 
parar de tremer. No fundo, ela sabia que, uma vez dada a palavra, jamais poderia voltar atrs.
       - Quando... - ela comeou a perguntar, mas as palavras no saram. 
       Tentou falar novamente, mas no conseguiu. Entrou em pnico quando viu Ken caminhando em sua direo... J no podia enxerg-Io com nitidez, as imagens se 
confundiam. Ouvia vagamente as palavras que ele pronunciava, sem, contudo, compreend-Ias. De repente, sentiu que estava caindo num poo escuro e profundo. Quando 
Briony voltou a si, escutou uma voz masculina e um tanto paternal, Forando a vista, reconheceu o mdico.
       - H anos ela vem exigindo demais de si mesma. Cuidar de um garoto de dois anos no  fcil e pelo que vejo ela anda sobrecarregada. Mas segundo voc me informou 
as coisas vo melhorar para ela.
       - Sim, ns vamos casar assim que for possvel. 
       - Bem, no h razo alguma para adiar. Quanto mais depressa toda essa excitao passar, e ela puder relaxar, melhor.
       Briony se mexeu com impacincia, indignada com o fato de ficarem falando dela como se fosse um objeto inanimado. Ken estava de p ao lado da cama e, percebendo 
o movimento, tocou o brao do mdico.
       - Bem, minha jovem - disse ele com animao -, como se sente agora?
       - Fraca - admitiu. Ela estava em sua prpria cama e podia ver o sol brilhando atravs da janela. - Nicky? 
       Tentou sentar.
       - Nicky est bem - assegurou Ken. - Telefonei para uma agncia especializada nessas emergncias. A sra. Johnson levou Nicky para dar um passeio.
       O mdico estava fechando a valise e preparava-se para sair.
       - O que aconteceu? - perguntou Briony, ainda meio tonta.
       - Ao que parece voc passou por maus momentos e est com um esgotamento nervoso. Seu filho sofreu um acidente, e o choque que voc levou provavelmente foi 
muito grande. Digamos que tenha sido a ltima gota... Seu sistema nervoso explodiu fazendo com que toda a tenso acumulada viesse  tona... por isso, voc perdeu 
os sentidos. Portanto, de hoje em diante, tente manter-se calma e cuide mais de sua sade, est bem?
       Ele apanhou a valise, e Ken o acompanhou at a porta.
       Vrias horas da minha vida se passaram sem deixar qualquer marca, pensou Briony. Ela podia lembrar apenas de uma horrvel sensao de inconscincia se aproximando 
e depois... mais nada.
       - Voc est melhor? Podemos conversar?
       Ela concordou com a cabea; Talvez a perda de conscincia tivesse sido uma fuga involuntria para escapar de Ken e do casamento. Tudo podia ser possvel. 
Briony estava usando uma camisola curta de algodo e no se lembrava de t-Ia vestido.
       - Voc... voc trocou minha roupa?
       - No entre em pnico. Eu no tentei satisfazer meus desejos com seu corpo indefeso, se  isto que est pensando. - Correu os olhos pelo corpo dela e um brilho 
surgiu neles quando Ken notou que ela havia corado. - J fIz todos os preparativos para o casamento - disse calmamente. - Na data marcada, a sra. Johnson cuidar 
de Nicky. Pedi que ela fizesse as malas com as roupas dele e com as suas. No quero que se repita o que aconteceu ontem  noite. No seria nada agradvel se minha 
noiva desmaiasse a meus ps. - Ele passou os dedos pelo queixo. - Acho que voc no tem um barbeador, no? Eu subi para saber se Paolo podia me emprestar o dele, 
mas ningum respondeu.
       - Eles tiveram de voltar para a Itlia. O irmo de Paolo sofreu um acidente e no est passando bem.
       - Precisamos procurar uma casa, mas s quando voc estiver se sentindo melhor - comentou Ken friamente. - Voc e Nicky podem ficar no meu apartamento. No 
pretendo passar mais nenhuma noite em seu sof duro. Eu gosto de dormir e fazer amor em ambientes mais confortveis.
       - No haver nenhum "ato de amor" entre ns, Ken, e mudar para o seu apartamento est fora de cogitao. Nicky precisa de um jardim para brincar. Voc no 
pode engaiolar uma criana num apartamento.
       - Nenhum "ato de amor"? Voc no poderia esperar at que eu tentasse? - Ken falava suavemente. - Se o apartamento est fora de cogitao, o que voc sugere? 
Aqui no h quartos suficientes para ns trs. - Ele olhou com desdm para o pequeno quarto e para a cama de solteiro. - Ou voc est pensando em me mandar para 
o andar de cima?
       Era exatamente isso que Briony havia imaginado. Seu corpo tremia sob os lenis ao lembrar as insinuaes dele. Ken no tentaria nada... ou tentaria?, Briony 
pensava, com nervosismo.
       - Seria uma tima soluo voc usar o apartamento de cima - comentou ela, tentando parecer lgica. - Nicky ainda no est muito acostumado com voc...
       - No! Ns estamos nos casando para dar uma famlia para ele, no um pai que cumpra um horrio de visitas estipulado por voc. Se voc no quer morar no meu 
apartamento, muito bem, ento procuraremos uma casa.
       - De acordo! Assim poderamos adiar o casamento at encontrar uma. - Seus lbios estavam secos, e Briony desviou o olhar de Ken enquanto rezava para que ele 
concordasse, o que no aconteceu.
       - De forma alguma. Dentro de trs dias estaremos casados, mesmo que eu tenha de carreg-Ia para o altar. Preparei tudo com antecedncia e j providenciei 
os papis necessrios. Agora, descanse. Preciso ir ao escritrio. A sra. Johnson voltar logo e recebeu ordens expressas para no deix-Ia sair dessa cama. At logo!
       
       A sra. Johnson mostrou ser uma mulher muito maternal e eficiente. Tinha quase quarenta anos e seguiu as instrues de Ken ao p da letra. Nicky teve permisso 
para entrar no quarto da me na hora do almoo e conversou alegremente com Briony enquanto ela comia uma maionese de frango.
       - Logo eu terei um pai e ns vamos morar com ele numa casa nova - ele disse, cheio de orgulho.
       Ken no perdeu tempo! Informou o filho de todas as mudanas, Briony pensou com amargura, no podia ter deixado para ela contar as novidades? Ou no confiava 
que ela o faria sem colocar Nicky contra ele? Briony sentiu-se ressentida. S queria o bem de seu filho e nunca faria algo que pudesse prejudic-Io. Nicky estava 
to acostumado a ter s a me que ela no imaginava qual seria a reao dele diante da presena de uma terceira pessoa na pequena famlia. Geralmente os meninos 
no aceitam com facilidade que a me case e se dedique a outro homem. Porm, Nicky parecia satisfeito e, no caso de Briony, no haveria problemas pois ele no assistiria 
a cenas de intimidade entre ela e Ken. Pela primeira vez, Briony ficou curiosa em saber a opinio de Ken sobre o casamento. Casar com ela significava no satisfazer 
os desejos naturais masculinos. Ser que ele achava que Nicky compensaria o sacrifcio? Ou ele continuaria vivendo livremente e buscando outras mulheres? Ela ficou 
abalada com a intensidade da raiva que sentia. Que interesse poderia ter no que Ken faria da vida dele?
       Na hora do lanche, ela quis se levantar, mas a sra. Johnson foi inflexvel e no permitiu. Ela havia dado po com manteiga e ovos para Nicky comer, e o menino 
estava entusiasmado com o lanche quando Briony abriu a porta da cozinha.
       - O sr. Blake me disse que a senhora no deveria sair da cama de modo algum - protestou ela.
       - O sr. Blake no d ordens por aqui - replicou Briony.
       Seus cabelos estavam oleosos, e ela queria lav-Ios. Alm disso, j estava cansada de ficar deitada pensando em Ken. Depois de Nicky ter terminado o lanche, 
ela agradeceu  sra. Johnson pela ajuda e dispensou-a com firmeza. Nicky conversou alegremente enquanto tomava o banho e depois eles fizeram todas as suas brincadeiras 
favoritas. 
        espantoso como ele aprende as coisas a cada dia que passa, pensou Briony, orgulhosa, ouvindo-o contar-lhe como tinha sido o dia dele.
       - Quando meu pai vai voltar? - ele perguntou repentinamente.
       Ken no havia dito quando voltaria. Nem entrou em detalhes quanto aos preparativos do casamento. Se ele no lhe telefonasse no dia seguinte, ela teria que 
faz-Io. Nicky a olhava indeciso, e Briony respirou fundo, dizendo a si mesma que precisava comear a preparar o filho para as mudanas que aconteceriam. .
       - Eu no sei exatamente quando ele vir - disse, com cuidado. - Provavelmente logo.
       - E ento ns iremos morar com ele para sempre?
       - Espero que sim. - Ela o tirou do banho, enxugando-o rapidamente.
       - Ns no vamos mais morar aqui? - perguntou ele subitamente, franzindo a testa. - Ns vamos embora com Gina?
       - Talvez. Agora vamos. Que brinquedo quer esta noite?- Ela tentou desviar o assunto.
       Briony colocou o filho na cama com um dos brinquedos enquanto foi tomar banho e lavar os cabelos; enxugou-os rapidamente antes de colocar um roupo fino e 
voltar ao quarto dele. Ela havia acabado de entrar no quarto quando a porta se abriu e Ken entrou. Tirando o palet, jogou-o sobre a cama e afrouxou a gravata, num 
gesto de intimidade que a deixou tensa. Ken sorriu para Nicky, que o olhava indeciso. Briony observou-o sem se surpreender pelo fato de suas mos estarem tremendo. 
Havia algo que ela deveria fazer mesmo que a magoasse, mas que precisava ser feito pelo bem de Nicky. Inclinando-se sobre a cama, Briony disse suavemente para o 
filho: 
        - Veja quem est aqui, Nicky! E seu pai.
       Houve um momento de silncio, e ela sentiu o olhar incrdulo de Ken e a incerteza de Nicky. Ento Ken se sentou ao lado dela na cama, olhando para o rosto 
do filho, e disse, com voz rouca:
       - Ol, Nicky!
       Quando Briony fechou a porta do quarto e saiu, comeou a chorar. Ela no se lembrava de j ter sentido tanta dor antes, a no ser na ocasio em que descobrira 
que havia sido enganada por Ken. O que ele estaria dizendo a Nicky? Ser que estava tentando conquist-Io s para si? Foi para seu quarto, sentando-se em frente 
 penteadeira e escovando os cabelos, o que a distraiu por algum tempo. Entretanto, no conseguiu conter-se quando Ken entrou no quarto e encontrou-a de joelhos 
com a cabea entre as mos e o secador jogado no cho. Ele j estava ao lado dela antes que Briony tivesse notado sua presena. Ken a pegou pelos braos para levant-Ia, 
       - Obrigado - disse ele suavemente. - Foi muito gentil de sua parte fazer aquilo.
       - O que eu disse a Nicky em relao a voc? Tudo bem...
       Se ele percebeu a ansiedade dela e quis saber a razo, pelo menos no demonstrou.
       - Ele j est dormindo. - Ken tocou o rosto dela com os dedos e viu que estava molhado. - Oh, Briony - ele protestou com doura, trazendo-a para junto de 
si -, casar comigo  to terrvel a ponto de voc chorar?
       - Eu no estou chorando - respondeu, mas as palavras foram sufocadas pelo peito dele. 
       H anos que no chorava, e ela odiou-se pela fraqueza que a invadiu, mas no conseguiu parar. Queria dizer a ele que a deixasse em paz, porm seu corpo estava 
colado ao dele enquanto Ken procurava consol-Ia com suavidade. Como se as lgrimas estivessem derretendo o gelo, Briony podia sentir seu corpo revivendo ao toque 
das mos de Ken, e as sensaes que ela havia esquecido completamente foram surgindo e dominando-a inteiramente. Ele colocou as mos por dentro do roupo dela, acariciando 
a pele trmula. As emoes contidas havia anos procuraram satisfao imediata e Briony cedeu ao toque dele sem pensar, com a fora de vontade anulada por uma necessidade 
antiga que nada poderia deter. Ela o abraou cegamente, sem perceber que ele a havia erguido e levado para a cama estreita. Briony soltou um gemido suave. Todo seu 
corpo estremeceu em resposta ao beijo dele, e apaixonadamente se aproximou, at que Ken segurou-lhe as mos e a manteve afastada dizendo com a voz entrecortada de 
desejo:
       - Ningum a toca h anos, no ? Tudo estava apenas  espera, escondido bem no fundo e precisando apenas de um toque para se soltar. Bem, est livre agora 
- disse ele, puxando-a de encontro ao corpo. - Sinta o que voc est provocando em mim, Briony. Eu quero fazer amor com voc, mas agora sem enganos. No quero ser 
acusado uma segunda vez. - As palavras dele esfriaram todo o desejo, fazendo com que Briony voltasse  realidade e no aceitasse o instinto como algo natural. Ela 
ficou plida e angustiada. - O que aconteceu, mudou de idia? - Ken a encarava. - Por um momento voc foi mulher. No pode se esconder para sempre. A qualquer momento 
essa mulher que existe a dentro destruir esse seu mundinho sem emoes.
       Briony ficou horrorizada. O que tinha acontecido com ela? Como podia ter se entregado totalmente? Empurrou-o, revoltada. O que ele estaria pensando? Agora 
era impossvel se casar com ele. Plida e com raiva, ela resolveu desafi-Io:
       - Continue, ento. Prazer!  isso o que voc quer, no ? Estava pensando que seria fcil me excitar? Oh, Deus, como eu odiei voc!
       O rosto de Ken estava quase to plido quanto o dela.
       -  realmente o que pensa? - ele respondeu, com fria. - Que eu faria isso deliberada e insensivelmente?
        Briony no podia dizer por quanto tempo eles ficaram se olhando com mtua amargura. A nica coisa que ela sabia  que, quando conseguiu desviar os olhos 
dele, estava tremendo incontrolavelmente.
       - Voc j fez isso antes.
       - E desde ento voc no deixou que nenhum outro homem entrasse em sua vida, no ? - Ela riu, parando apenas quando ele a sacudiu com fora. - O que  to 
engraado? - perguntou ele, rude.
       - Eu deixei que um homem entrasse na minha vida. Seu filho. E  por isso que representaremos essa farsa toda que ser o nosso casamento.
       - Agora  tarde para voltar atrs - avisou ele. - Nicky...
       - Sim, eu sei. E pelo bem de Nicky que estou fazendo isso. Oua bem, que uma coisa fique bem clara entre ns, Ken. Eu no quero me rebaixar a ponto de manter 
novamente uma relao sexual com voc sem amor.
       Ele a estudou por alguns momentos, com uma expresso que Briony no compreendeu, e ento ela voltou a corar quando Ken disse vagarosamente:
       - E se fosse com amor?
       Briony rejeitou essa possibilidade. No entanto, o intenso desejo que a dominava provou que o passado ainda estava bem vivo. Procurou reprimir a emoo declarando, 
com indiferena:
       - Eu no amo voc! Isso basta? 
       O toque do telefone quebrou o silncio constrangedor. Ken saiu da cama, foi at a sala e deixou Briony para trs amarrando o roupo. Ela o seguiu, cheia de 
ressentimento. 
       - Era para mim - disse ele calmamente, recolocando o fone no gancho. - Eu deixei o nmero do seu telefone no jornal. - Quem seria? Gail? Mas por que estava 
se preocupando? - Surgiu um problema, e eu preciso ir at l - disse Ken como se tivesse percebido as suspeitas dela. - Eu vim para lhe dizer que encontrei uma casa. 
Alguns amigos meus que moram em Surrey vo para os Estados Unidos por um ano e podem deixar a casa para ns, o que nos dar tempo de achar o que realmente queremos. 
E isso tambm significa que voc no ficar cansada procurando em imobilirias. Voc j pensou no vestido de noiva?
       A pergunta a pegou desprevenida.
       - O que voc quer dizer?
       A impacincia dele pairava no ar.
       - O que estou tentando saber  se voc quer que eu arranje algum para cuidar de Nicky enquanto sai para comprar um vestido de noiva. Veja, eu no estou sugerindo 
um vestido branco, com uma cauda imensa e cheio de rendas. e prolas - disse ele enquanto ela tomava distncia - mas a maioria das mulheres parece considerar o casamento 
uma boa desculpa para comprar uma roupa nova.
       - Bem, eu no sou a maioria das mulheres. Se eu fosse usar algo apropriado  minha situao, provavelmente iria  de luto! 
       Por um momento ela pensou que tinha ido longe demais. Ele estava furioso, mas, quando Briony deu um passo para trs, a raiva deu lugar a um sorriso zombeteiro 
que a deixou mais preocupada ainda.
       - Voc realmente quer tornar as coisas mais difceis para si mesma, no ? - disse ele, suave. - Amanh voc vai sair e comprar algo apropriado para o casamento. 
Acho bom seguir meu conselho, caso contrrio terei o prazer de, pessoalmente, despi-Ia e vestir as roupas em voc. Entendeu?
       Ele partiu antes que ela pudesse revidar, deixando-a exausta depois de tanta discusso. O mais curioso  que ela se sentia mais viva do que nunca.

       Com certeza, Ken no gosta de fazer as coisas pela metade, pensou Briony enquanto bebia champanhe. Terminado o casamento, ela ainda no sabia que ele havia 
preparado uma recepo no Savoy. O casamento em si tinha sido uma surpresa. Ela esperava por uma cerimnia simples no cartrio, e surpreendentemente o carro que 
Ken havia providenciado parou em frente  igreja local. Houve um instante, quando eles estavam fazendo os juramentos, em que ela pensou que teria sido tudo muito 
diferente se Ken fosse realmente o homem que imaginava ser, mas tirou essa idia estpida da cabea ao lembrar as verdadeiras razes daquele casamento.
       - Voc realmente nos enganou - disse Gail. - Quem poderia imaginar?
       - Quem poderia imaginar o qu? - perguntou Ken, aproximando-se de Briony e abraando-a pela cintura, o que a fez ficar tensa. - J est mal-humorada, querida? 
- Ele ria, mas seu olhar a avisou para no desafi-Io publicamente. - Eu prometi que estaria a seu lado pelo resto do dia... e da noite!  - Tomada pela raiva, Briony 
esqueceu Gail e se virou para ele, tentando exigir que a soltasse, porm suas objees foram sufocadas pelo calor dos beijos de Ken. Ele sussurrou contidamente: 
- Lembre-se, ns acabamos de casar. Todos esperam que pareamos felizes. Tudo  muito romntico. Voc no quer que as pessoas pensem que fui forado a casar com 
voc para dar um nome a Nicky, quer? Porque  exatamente o que vo pensar.
        Ela ia dizer que no se importava com a opinio dos outros, mas mudou de idia.
       - Santo Deus, Ken, eu nunca imaginei que voc fosse to expansivo - disse Gail com um sorriso. - E eu que pensei conhec-lo to bem! - Lanou um olhar malicioso 
para Briony e acrescentou: -  verdade, Briony, que voc tem um filho? Eu no pude acreditar quando Ken me contou. Sempre vi voc como uma freira. Sabe-se l o que 
Matt far quando descobrir! Ele quase ficou louco ao saber que voc e Ken iam casar!
       - No  "um filho", Gail - disse Ken, -  "meu filho". - Briony sentiu que ele a olhava. - Eu acho melhor deixar isso bem claro, querida, pois no podemos 
esconder a existncia de um garotinho como Nicky.
       A falsidade da situao a deixava angustiada. Quando ela concordou em casar com Ken no lhe passara pela cabea ter de desempenhar um papel to ridculo.
       - No pare de contar - pediu Gail. - Cus, parece um conto de fadas!
       - Na verdade no  - Ken deu de ombros. - Briony e eu brigamos antes que ela soubesse que estava grvida e era muito orgulhosa para me dizer o que havia acontecido. 
Quando eu voltei para c, e nos encontramos, nos apaixonamos pela segunda vez e a descoberta de que eu tinha um filho foi a maior alegria.
       - Ken me disse que voc vai parar de trabalhar - falou Gail a Briony, que estava em silncio ouvindo a verso relatada por Ken. - Voc no acha que vai ser 
maante demais?
       Briony ficou tensa, percebendo o tom maldoso nas palavras de Gail, porm Ken respondeu por ela, divertindo-se ao v-Ia corar:
       - Bem, eu acho que podemos encontrar uma soluo para esse problema - disse ele. - Ns no queremos que Nicky seja filho nico.
       Nesse momento Gail foi chamada por algum e, pedindo licena para Ken, saiu. .
       - Eu acho... - Briony ia dizendo, mas Ken colocou os dedos sobre os lbios dela, impedindo-a de continuar.
       - Nenhum homem gosta de que riam dele. Eu quero que fique bem entendido que Nicky  meu filho, assim como quero que esteja claro que agora voc  minha esposa. 
Por falar nisso, gostei do seu conjunto - acrescentou ele, pousando os olhos deliberadamente no movimento que os seios dela faziam sob o vestido de seda creme. Briony 
jurou a si mesma que no iria comprar nada de especial, mas acabou escolhendo um conjunto de trs peas em seda com a saia justa, uma blusa de alas finas e um blazer 
de mangas compridas. A cor clara realava seus cabelos, fazendo-os parecer mais loiros e os olhos verdes ficavam mais brilhantes. Quando Ken a olhou, ela lembrou 
que estava totalmente despida sob a blusa. O tecido era muito fino para que usasse um suti e na pressa de se vestir no pensou nas possveis conseqncias. -  
muito bonito - comentou Ken como se tivesse lido os pensamentos dela.
       - Voc no devia ter contado a Gail a respeito de Nicky - protestou Briony, tentando mudar de assunto.
       - Por que no? Talvez voc preferisse manter Nicky em segredo, mas eu no. Eu me orgulho do meu filho e quero que saibam que sou pai dele.
       O machismo de Ken a deixou furiosa.
       - Suponho que voc queira tambm contar a eles como o gerou... Voc no parece um ser humano! O que esperava? Que eu me portasse como se este fosse o dia 
mais feliz da minha vida, quando todo o tempo fui forada a esse casamento para evitar que voc tirasse meu filho? Um filho que voc gerou sem considerao ou amor, 
ou outra emoo qualquer a no ser ambio? Sua arrogncia  estarrecedora! Eu... 
       Suas palavras foram sufocadas pelos lbios dele, a presso forte das mos machucando-lhe a pele atravs do fino tecido. Briony podia ouvir as pessoas rirem 
e, quando Ken a soltou, ela se sentiu envergonhada ao descobrir que eles eram o centro das atenes. Algum chamou a ateno de Ken, e ele se voltou para atend-Io. 
A maioria dos convidados era do jornal. Havia dois ou trs velhos amigos de Ken, e Briony suportou a inspeo curiosa deles com muito mais segurana do que seria 
capaz.
       A sra. Johnson estava cuidando de Nicky, e Briony no via a hora de poder voltar para ele. Desde o acidente, ela sempre se preocupava quando estava longe, 
e Ken j a tinha repreendido por ficar mimando tanto o menino. Ela ficava magoada ao pensar que ele tinha os mesmos direitos sobre o filho e sentia-se muito mal 
vendo que o casamento havia reforado isso. Estava to absorta nos pensamentos, andando de um lado para o outro, que s percebeu que Matt a seguia quando ele a pegou 
pelo brao. Ele parecia mais magro e infeliz, e Briony sentiu-se culpada por no ter lhe contado tudo o que estava acontecendo.
       - No posso acreditar nisso - disse ele. - Briony, o que vou fazer sem voc? S voc me d ateno. - Ela quase riu diante de tal infantilidade, e agora se 
recriminava por ter deixado que ele se tornasse to dependente dela. - Vou sentir muito a sua falta, Briony. No sei o que fazer. Voc acha que devo aceitar Mary 
de volta?
       Se ele precisa perguntar,  porque ainda no tem muita certeza dos sentimentos, pensou Briony, exasperada. Ela estava pronta para lhe dizer que ele deveria 
tomar as prprias decises quando viu Ken a seu lado.
       - Briony agora  minha esposa - disse ele a Matt, com raiva, segurando-a com firmeza pelo pulso. - Lembre-se disso. E quanto a voc... - dirigiu-se a Briony 
quando Matt se afastou. - O que est pensando? Eu no tive esse trabalho todo para convencer as pessoas de que ns formvamos um casal feliz para depois voc pr 
tudo a perder deixando esse idiota ficar choramingando em seu ombro!
       A intensidade da raiva dele a deixou muda.
       - Matt e eu somos velhos amigos - protestou ela, quando recobrou a voz. - Nunca ningum pensar...
       - Que vocs so amantes? - terminou Ken. - Voc ficar surpresa. Eu mesmo pensava isso at descobrir que voc no tinha realmente sido tocada...
       - Como a Bela Adormecida esperando o beijo do Prncipe Encantado?  isso o que voc pensa, Ken? Que voc s tem de me tocar e eu acordarei? Sinto muito desapont-Io. 
Eu sou totalmente fria.
       - Mas acabou se revelando na outra noite - recordou ele, olhando-a de uma maneira que ela no conseguiu sustentar.
       - Eu no sabia o que estava fazendo. O acidente de Nicky... o choque...
       - Sim, eu sei de tudo isso. Voc no precisa me dizer que no deixar que eu me aproxime de voc. Mas suas defesas no so inquebrveis. Lembre-se de que 
da prxima vez voc pode no conseguir resistir.
       Ele se virou antes que Briony pudesse responder, deixando a sensao de que havia dito a verdade. No que se relacionava a Ken, ela era muito vulnervel e 
teria que usar toda a fora de vontade para evitar que suas defesas fossem quebradas. Uma vez j tinha suportado a amargura de ter uma relao sem amor, mas no 
conseguiria sobreviver a essa agonia novamente.

CAPTULO VI

       Eles deixaram a recepo debaixo de uma chuva de arroz e ptalas de rosas, passando atravs dos amigos que os felicitavam, embora Briony tivesse percebido 
que nem Gail nem Matt estavam l para se despedir deles.
       - Imaginei que voc no gostaria de ter uma lua-de-mel - disse Ken com sarcasmo enquanto eles saam de Londres. - Embora ver voc vestida de noiva me faa 
ficar com segundas intenes.
       - Ento pode esquec-Ias. Voc me mandou comprar uma roupa nova, lembra? Foi o que fiz.
       - Pena que voc no seja sempre to obediente - zombou Ken. - Por falar nisso, onde vou dormir esta noite? Posso tentar adivinhar?
       Briony ficou corada. Eles tinham decidido mudar para a casa que Ken alugara no dia seguinte ao casamento, e ele no se ops a que ela e Nicky permanecessem 
em sua prpria casa at o dia da mudana. Entretanto, ela enrubesceu ao lembrar do impulso que a fez arrumar o quarto de cima, colocando lenis limpos na cama e 
deixando uma camisola sobre ela para que a sra. Johnson no desconfiasse da farsa daquele casamento. Quando, porm, a mulher chegou, com o carro que deveria apanhar 
a noiva, Briony j estava arrependida, s que no havia mais tempo de subir e reparar o erro antes de sair de casa.
       - Talvez Nicky permita que voc durma com ele! - sugeriu Briony, com um sorriso malicioso.
       - Ou talvez a me dele me deixe dormir com ela, que tal?
       - No!
       - No precisa ser to veemente - brincou Ken. - Estou me lembrando de uma vez em que voc mal podia esperar para que dormssemos juntos. 
       Briony ficou envergonhada e sem coragem de encar-Io. Como esse casamento poderia dar certo, se ele insistia em remoer o passado a todo momento?
       - Bem, uma vez foi o bastante para que eu nunca mais quisesse repetir a triste experincia! - exclamou ela para disfarar o embarao. .
       De repente, o carro parou bruscamente, jogando-a contra a porta. Ken a pegou pelos ombros. Seus olhos brilhavam de raiva quando a puxou para junto de si.
       - Pare de me culpar, ouviu bem? - gritou ele, possesso. - Ou vou lhe dar razes reais para que voc se queixe. E enquanto estivermos aqui... - Ken a beijou 
com ardor, acariciando os cabelos dela. O beijo a deixou com falta de ar. Finalmente ele a soltou e a encostou no banco. - Agora sim voc parece que acabou de casar! 
- ele comentou, com satisfao. 
       - Tenho certeza de que a sra. Johnson ficar muito bem impressionada, mas voc no precisava se dar ao trabalho.
       - A opinio dos outros no me interessa.
       Briony j havia preparado Nicky para o seu casamento e explicado a ele as mudanas que ocorreriam na vida de ambos. Entretanto, o menino estava preocupado 
apenas em saber quando Ken viria morar com eles. Nicky j adorava o pai, e Briony teve muitos momentos de cime ao v-Ios juntos. Em poucos dias de convivncia parecia 
que Nicky havia passado de beb para um garotinho bastante esperto. Assim que o carro parou, Nicky apareceu na porta, desvencilhou-se do abrao da me com impacincia 
antes de se virar para o pai e pedir-lhe que o carregasse.
       - Eu vou coloc-Io na cama - disse Briony logo que entraram. - Por que voc no leva a sra. Johnson para casa?         
       - Na noite de npcias? Nem pensar! - exclamou a sra. Johnson, despedindo-se e dirigindo-se para a porta.
       - Que tal se voc me deixar colocar Nicky na cama? - sugeriu Ken, depois de a bab ter sado.
       - Voc no se contenta em ser o pai dele? - perguntou Briony. - Quer ocupar o meu lugar, tambm? S me faltava essa!
       - Voc me interpretou mal - exclamou Ken calmamente, embora estivesse um pouco tenso. Colocou Nicky no cho, mas o garoto, percebendo o clima alterado, agarrou-se 
s pernas de Ken, reclamando. - Bem, voc parece cansada, e o mdico disse para no se sobrecarregar, lembra? Deve estar enfraquecida, pois praticamente no comeu 
nada durante a recepo. Eu ia sugerir apenas que descansasse um pouco enquanto eu coloco Nicky na cama e preparo uma omelete para ns.
       - Pelo amor de Deus, Ken, pare de representar! - Naquele instante, ela perdeu o controle. O que ele pretendia? Que ela se sentisse culpada e irracional? Pois 
estava conseguindo! At mesmo Nicky a olhava com incredulidade. - Eu vou cuidar de Nicky... - Briony comeou a falar mas, ao lembrar o que havia feito no quarto 
de cima, mudou de idia. - Est bem, se voc insiste... Mas no se preocupe comigo. Se sentir fome eu mesma vou preparar alguma coisa.
       Ela saiu do apartamento enquanto Ken e Nicky estavam no banheiro. L em cima os ltimos raios de sol entravam pela janela, refletindo-se na camisola que ela 
havia posto sobre a cama. Ia peg-Ia quando de repente a porta se abriu e Ken gritou, exasperado:
       - Ento  a que voc est! Nicky quer o patinho dele e eu... - Mesmo de costas para ele, Briony pde perceber que Ken vira a camisola pela mudana no seu 
tom de voz, que se tomou subitamente suave. - Muito bem, parece que depois de tudo ainda assim vou ter uma noite de npcias - comentou ele, chamando a ateno, para 
a enrascada em que ela mesma havia se metido.
       - Eu a coloquei aqui apenas por causa da sra. Johnson - ela explicou, tentando se defender. 
       - Ah, ? Uma mulher que h menos de duas horas disse que no se importava com a opinio dos outros? Eu no acredito. 
       - Isto  problema seu! Eu no dormiria com voc nem se fosse o ltimo homem na face da terra!
       - E nem teria chance, se pensa que esse trapo de algodo a torna desejvel - respondeu Keri, com brutalidade.
       Ele pegou a camisola velha e os olhos de Briony se encheram de lgrimas. No sabia por que tinha ficado to magoada, mas a verdade  que aquelas palavras 
tocaram na antiga ferida aberta e ela desejou revidar com a mesma intensidade. Porm, a nica coisa que conseguiu dizer foi: 
       - Pelo menos tenho o que usar! E voc? Duvido que durma vestido.
       -  claro que no, e at agora no tive reclamao nenhuma - ele falava sem se alterar. Quando ela ia saindo do quarto, ele a puxou pelo brao com os olhos 
cheios de ironia. - Fez isso apenas por causa da sra. Johnson, Briony? Ou aquela outra mulher escondida dentro de voc comeou a dar sinal de vida?
       - Eu no sei aonde voc quer chegar. - A forma penetrante como ele a olhava deixou-a com falta de ar. Seu corpo tremia ao sentir o toque daqueles dedos. Briony 
tentou evitar o olhar de Ken, virando-se para a frente; foi um erro, porque tudo o que ela podia ver era o peito msculo e sensual... e essa viso fez com que todas 
as antigas recordaes acabassem voltando. - O patinho de Nicky... - ela murmurou com voz rouca. - Por favor, deixe-me ir.
       Ele a soltou, mas no se afastou. Briony sentiu ento toda a masculinidade dele ao passar perto de seu corpo. O rosto dela estava vermelho de raiva s de 
pensar naquela intimidade forada.

       - Ainda vai demorar muito? - perguntou Nicky, pela terceira vez.
       Eles estavam sentados no carro de Ken, indo para a casa nova. 
       Briony ainda no sabia o que fazer com a antiga casa, e Ken sugeriu que seria um bom negcio alug-Ia mobiliada durante as temporadas. Ela mal tinha conseguido 
dormir naquela noite, e a conversa entusiasmada de Nicky quebrava o silncio que pairava no ar. Na noite anterior, depois que Nicky adormeceu, ela foi direto para 
a cama, alegando que estava exausta e fugindo da insistncia de Ken em conversar. 
       Ainda era incio de vero, e o campo estava fresco e verdejante, embora no chovesse havia vrias semanas. Certamente, com melhor estado de nimo, Briony 
teria adorado o passeio. Apesar da velocidade e do ar-condicionado que mantinha a temperatura agradvel, ela no conseguia prestar ateno  paisagem, achando impossvel 
relaxar.
       A casa ficava numa pequena vila, tinha dito Ken, acrescentando que lhe daria um carro para que ela pudesse sair quando quisesse. Como Briony j sabia, pela 
convivncia com Doug, a vida de um editor de jornal era bastante atribulada. Ele poderia ser chamado a qualquer hora do dia ou da noite para resolver alguma emergncia, 
por isso talvez Ken preferisse estar mais perto do centro da cidade. Quando Briony se referiu a esses problemas, ele pareceu no se importar e disse que ficariam 
naquela casa por pouco tempo, acrescentando:
       - Voc j est querendo se livrar de mim, hein?
       Ela no sabia como conseguiria suportar a presena constante dele. Um nico dia de convivncia fora o bastante para lhe mostrar o quanto era cansativo representar 
que estava levando uma vida normal. Desse jeito acabarei tendo outro esgotamento nervoso, pensou angustiada. Apesar de terem achado a vila com facilidade, Ken precisou 
parar e perguntar onde ficava a casa. Construda no final de uma alameda estreita, puderam avistar uma casa de madeira preta e branca coberta de sap, com janelas 
de trelia. A casa era cercada de lrios e rvores, e Briony ficou admirada com a beleza, virando-se espontaneamente para Ken e dizendo:
       -  maravilhosa! .
       - Antigamente era um barraco da poca Tudor, mas foi reformado e ampliado - contou Ken, parando o carro. - O jardim  grande e se no me engano parece que 
um jardineiro vem uma vez por semana cuidar dele. Pelo que me informaram, no quintal h um balano para Nicky brincar. Assim voc no vai subir nas rvores, certo? 
- dirigiu-se ao filho.
       Eles saram do carro e Ken procurou as chaves para abrir o porto. Briony ficou aliviada ao ver que o porto tinha tambm um cadeado. s vezes Nicky cismava 
de se aventurar e assim no poderia sair. Ela e Nicky seguiram Ken, mas o menino soltou-se da mo dela e correu atrs de um gatinho que estava no jardim. O bichinho 
entreteve Nicky por alguns minutos antes de fugir e desaparecer. Logo em seguida surgiu uma borboleta multicolorida chamando a ateno do menino que, eufrico, tentava 
alcan-Ia. Ken j havia aberto a porta da frente, e quando Briony ia passar por ele viu-se levantada por braos fortes.
       - O que voc est fazendo com minha me?
       Era a primeira vez que Nicky demonstrava possessividade. Seus olhos estavam cheios de raiva como os do pai costumavam ficar quando parou na frente dos dois.
       - Eu estou carregando sua me no colo para entrar na nossa primeira casa. Os outros aspectos desse casamento talvez no sejam muito comuns - Ken dirigiu-se 
a Briony -, mas no vejo nenhum mal em seguir os costumes nesse caso, concorda?
       - Ponha-me no cho! - gritou ela.
       - Por qu? Voc est com medo que eu a leve pro quarto e exija todos aqueles direitos conjugais que voc prometeu ontem na igreja? Com meu corpo... - ele 
a lembrou.
       Impaciente ao ver aquela discusso, Nicky se agarrou s calas do pai, dizendo:
       - Ponha minha me no cho!
       Com um olhar gozador para Briony, Ken perguntou:
       - Foi voc quem lhe ensinou a dizer isso?
       Para alvio de Briony, o chal tinha trs quartos grandes. Ken subiu a escada enquanto ela arrumava as roupas e brinquedos de Nicky no menor deles.
       - Acho que  demais esperar que voc faa isso tambm para mim.
       Briony fingiu no ter ouvido. Ela se sentia mal s de pensar em tocar nas roupas que haviam entrado em contato com a pele dele.

       A vida comeou a cair numa rotina. Apesar de Briony demonstrar cime, Nicky continuava se dando muito bem com o pai. Normalmente ele se levantava na mesma 
hora que Ken para poder v-Io antes que sasse para trabalhar. Desde. que eles chegaram ao chal, Ken tinha se tomado distante e no fazia mais aqueles comentrios 
que tanto a incomodavam. Nos primeiros dias ele chegava tarde em casa, e depois comeou a passar vrias noites fora, no apartamento em Londres. Briony tentava se 
convencer de que estava feliz. A princpio, quando ele no voltava para casa, ela conseguia dormir com facilidade. Depois, seus sentimentos mudaram... Tornou-se 
bastante difcil para ela dormir quando Ken no estava em casa, e Nicky acabou ficando irritadio, perguntando a toda hora quando o pai iria chegar.
       Uma tarde o telefone tocou, e uma voz masculina perguntou por Ken, apresentando-se como o dono do chal. Ele parecia muito ansioso e, num impulso, assim que 
desligou, Briony discou para o apartamento de Londres, com a inteno de contar a Ken sobre o telefonema. O telefone tocou por muito tempo, e ela j ia desligar 
quando algum pegou o fone e uma voz feminina disse:
       - Eu j atendi, querido. Espero que no seja do jornal. Isso so horas de telefonar?
       Briony reconheceu a voz de Gail e desligou sem dizer nada. S no entendeu por que sentiu tanta dor ao saber que seu marido estava na companhia dela.

       Ken voltou para casa na noite seguinte e, apesar de Briony ter prometido a si mesma que ignoraria completamente aquele telefonema, percebeu que seria muito 
difcil conseguir conversar com ele. Ele colocou o palet sobre uma cadeira e enquanto afrouxava o n da gravata jogou-se numa poltrona dizendo:
       - Meu Deus, corno estou cansado!
       - Talvez voc devesse dormir um pouco mais - disse Briony, com doura.
       Ele estava de olhos fechados e abriu-os repentinamente, mostrando raiva e cansao.
       - O que voc est insinuando? Um homem de carne e osso tem de satisfazer certas necessidades, seno acaba no conseguindo dormir. Mas  claro que voc no 
entende nada disso, ou entende?
       Jantaram em silncio. Depois, Briony foi arrumar a cozinha. Quando voltou para a sala, comeou a observar Ken, que estava adormecido, com as feies muito 
parecidas com as de Nicky. Desviou a ateno dele, convencendo-se de que apenas a semelhana havia despertado seu interesse, e subiu. J que ele gosta de poltronas, 
que durma a! No vou acord-Io, disse para si mesma.
       Briony, j estava dormindo havia algum tempo quando ouviu o telefone tocar, e na manh seguinte encontrou um bilhete de Ken embaixo da garrafa trmica, dizendo 
que tinha sido chamado pelo jornal.
       "Obrigado por ter me deixado dormir na poltrona", eram as ltimas palavras irnicas do bilhete. Ela picou o papel e jogou-o no lixo. Por que Ken havia se 
casado com ela? Para conviver mais com o filho? Mas mesmo nos fins de semana ele saa para trabalhar... Briony recusou-se a reconhecer que tambm estava sofrendo, 
embora se preocupasse em primeiro lugar com os sentimentos de Nicky.
       Para descarregar o mau humor, ela vestiu um jeans e uma camiseta velha e passou quase toda a manh cuidando das grandes jardineiras, enquanto Nicky brincava 
por perto, falando consigo mesmo. Ele era uma criana cheia de imaginao e, ouvindo o misterioso monlogo, Briony percebeu que seu amor pelo filho crescia a cada 
dia.
       Na hora do almoo, sentiu que suas pernas e costas estavam doendo de tanto ficar abaixada. Depois de cuidar do jardim, levou Nicky para dormir e entrou no 
banho. O barulho de um carro parando a fez ir correndo at a janela. Ela ainda estava com os cabelos molhados quando vestiu o robe de seda. E era Matt quem atravessava 
o jardim. Ela desceu para receb-Io, surpresa pela visita inesperada. Ele parecia mais deprimido do que nunca.
       -  Mary - disse ele com tristeza, depois que Briony lhe serviu uma xcara de ch. - Ela est querendo me abandonar outra vez. Reclama que sou maante e que 
nunca a convido para sair. Tambm como poderia fazer isso? Ken nos obriga a trabalhar como escravos. Nossa tiragem subiu nas ltimas semanas, mas ele diz que no 
vai descansar at que torne o Globe o jornal de maior vendagem do pas. Quando chego em casa, estou to cansado que s quero dormir, e Mary no consegue entender.
       Parecia que ele ia explodir em lgrimas, e Briony teve de conter a irritao que estava sentindo. No era de se surpreender que Mary fosse capaz de abandon-Io 
novamente. A enorme insegurana daquele homem seria capaz de deixar qualquer pessoa fora de si.
       - Escute, Matt, voc deve lhe explicar o quanto anda ocupado - aconselhou Briony. - Ou faz isso ou procura outro emprego que o desgaste menos.
       - Voc concorda com ela, no ? Voc mudou muito, Briony. Antes costumava me ouvir e compreender, mas agora... Talvez eu devesse agir como Ken - ele falava 
acusando-a e agarrando-a pelos braos sem que ela pudesse impedi-lo. - Quem sabe agindo assim consiga tudo o que quero.
       - Matt solte-me! - ordenou Briony, mais indignada que assustada. - No seja tolo. Eu no mudei. Apenas acho que, j que voc e Mary esto juntos, voc deveria 
fazer alguma coisa para melhorar a situao.
       Briony percebeu que ele se acalmou, mas, em vez de solt-Ia, encostou a cabea nos ombros dela e disse com os olhos cheios de lgrimas:
       - Oh, Briony, sinto muito.
       - Voc sentir se no sair daqui imediatamente - gritou Ken da porta, e Matt se afastou no mesmo instante. Ken estudou vagarosamente todo o corpo de Briony, 
com o rosto to tenso de raiva que fez com que ela tremesse de medo. Matt quase tropeou depois de olhar para o rosto alterado de Ken. Ao notar que o marido estava 
desviando o olhar dela, Briony pediu-lhe que a deixasse explicar o que havia acontecido. Porm Ken encarou Matt, ameaando-o: - E se voc colocar novamente os ps 
aqui, eu vou dar-lhe uma surra inesquecvel! - preveniu Ken, abrindo a porta. Quando Matt saiu, o silncio tomou-se insuportvel. Foi apenas quando ouviram o carro 
partir que Ken, olhou para as xcaras vazias e disse com desdm: - Eu j ouvi dizer que as pessoas gostam de fumar um cigarro depois de fazer amor, mas tomar ch? 
Bem, s poderia ser hbito de Matt.  isso que voc gosta? Ou sente-se segura com ele porque na relao  voc quem d as cartas? - Como Briony no respondesse, 
ele gritou: - O que est tentando fazer? Provar que eu no sou o nico que posso gerar um filho com voc? Bem, se for assim, ns nunca saberemos quem ser o responsvel 
pelo segundo!
       Ele a alcanou antes que ela pudesse fugir, pressionando-a contra a parede.
       - Ken, voc no entende? Matt... - Briony se interrompeu, sabendo que ele no a ouvia.
       Ken a pegou pela cintura brutalmente e subiu a escada enquanto ela tentava se libertar.
       - Eu no quero saber - disse ele, quando chegaram l em cima. O quarto de Briony era o mais prximo, e Ken abriu a porta, jogando-a sobre a cama e prendendo-a 
com o peso de seu corpo. Com uma das mos ele lhe abria o robe enquanto com a outra lhe segurava os braos. - Ele tambm olha assim para voc? Meu Deus, eu j no 
me lembrava mais... - As palavras morreram em seus lbios quando Ken se abaixou, e como no passado, encontrou uma pequena mancha embaixo do seio. - O corao de 
Briony batia descontrolado ao toque daqueles lbios, ao mesmo tempo em que ela ofegava quando Ken tocava o bico de seus seios, fazendo-a gemer de prazer. O esforo 
de ficar deitada completamente quieta quase acabou com seu autocontrole. Ver o rosto de Ken junto a seu peito, onde Nicky muitas vezes havia descansado, a enchia 
de uma emoo muito forte.  - Os carinhos dele a excitam? - murmurou Ken com voz rouca. - Ou voc  to fria com ele quanto  comigo? Eu no sou de gelo, Briony, 
eu a quero. Voc no percebe? - Ele soltou as mos dela e depois colocou-a sobre a pele quente de seu peito, gemendo quando os dedos de Briony tremeram ao toc-Io. 
Novamente aqueles lbios procuraram seus seios, dominando-a, fazendo com que ela acariciasse os cabelos dele e sentisse um toque de prazer. Subitamente Ken a olhou, 
e j era muito tarde para que Briony conseguisse esconder a expresso de desejo que havia em seus olhos. - Oh, Deus, Briony!
       Ele tocou cada parte do corpo dela com os lbios. Com as mos apertava-a contra o prprio corpo enquanto tentava se livrar da camisa e da cala. Briony podia 
sentir o sangue pulsando nas veias. Jogou a cabea no travesseiro, com o corpo estremecendo convulsivamente enquanto os lbios de Ken tocavam-lhe o pescoo, atormentando-a 
com beijos, fazendo com que ela implorasse que ele a possusse totalmente. A primeira vez que ela ouviu o choro de Nicky sua mente no conseguiu registrar, e Briony 
s compreendeu o que estava acontecendo quando Ken ficou quieto.
       - Nicky - disse com voz trmula, incapaz de encarar Ken. 
       O que estava acontecendo com ela? No conseguia imaginar nenhuma desculpa lgica ou vlida que justificasse aquele comportamento. Bastava Ken toc-Ia para 
que se transformasse em outra pessoa.
       -  melhor voc ir at l - disse ele, frio. - Voc tem sorte! Mais alguns minutos e teria acontecido.
       Ela detestou a maneira como Ken a observava enquanto ajeitava o robe. De costas para ele, disse furiosa:
       - Matt s veio para falar comigo. Ns no...
       - Vocs no o qu? No fizeram amor? Voc acha que eu no sei disso? Voc pode ser capaz de congelar sua mente, Briony, mas no seu corpo. Ele me exige, mesmo 
que voc no me queira. 
       - Eu no sou Gail! - gritou ela, saindo da cama, tremendo quando Ken a agarrou pelo pulso, puxando-a para trs.
       - O que  que voc est querendo dizer?
       - Exatamente o que voc pensou. - Ela se recusava a ser intimidada. - Outra noite eu telefonei para seu apartamento e foi Gail quem atendeu.
       - E minha esposa puritana logo chegou  concluso de que, j que estvamos no apartamento, obrigatoriamente isso inclua cama. Voc no poderia estar mais 
enganada. Gail foi me procurar para resolver um problema de trabalho, s isso.
       Ken a soltou sorrindo, e Briony pde notar a satisfao estampada no rosto dele.  Enquanto ela confortava Nicky, que havia tido um pesadelo, Ken desceu para 
a cozinha como se nada tivesse acontecido. Quando Nicky dormiu, ela tambm foi para a cozinha.
       - Voc gosta de tomar banho de sol? Com o seu tipo de pele, seria melhor que fosse se acostumando aos poucos, assim estar preparada.
       - Preparada para qu? - perguntou Briony, aborrecida por ter entrado naquele jogo de palavras misteriosas.
       - Eu no lhe disse?Como tenho trabalhado muito ultimamente, estou pensando em tirar umas frias para viajarmos.
       - Eu no vou viajar com voc. V sozinho ou leve Gal!
       Para contrari-Ia, ele comeou a rir. 
       - Acho que no posso fazer isso. Ns vamos ficar uns tempos com minha madrinha e eu j disse a ela que minha esposa  loira.  claro que eu e Nicky podemos 
ir sozinhos.
       - Nunca!
       -  o que voc pensa! Nicky e eu vamos de qualquer jeito, com ou sem voc. J preparei tudo, inclusive reservei as passagens para a travessia da balsa. Partiremos 
na prxima quarta-feira.
       - Balsa? Onde mora sua madrinha?
       - Oh, eu no lhe disse? Devia estar preocupado com outros problemas. Ela mora na Frana perto de St. Jean Cap Ferrat. Possui uma vila com uma praia particular. 
Nicky vai adorar.  - Ele imprimiu um tom decisivo s ltimas palavras, e Briony sabia que Ken pretendia levar Nicky para a Frana com ou sem a companhia dela: - 
Bem, voc vai conosco?
       - Certamente no deixarei Nicky sozinho com voc!
       - Que esposa encantadora! - zombou ele. - Voc precisar providenciar algumas coisas, no? Eu estava pensando em sugerir que a sra. Johnson ficasse com Nicky 
na segunda-feira.
       - Voc pensa em tudo, no? Como consegue? - Briony fitou-o com raiva. 
       Ele parecia prever cada passo que Briony iria dar, e ela no gostava desse tipo de policiamento. No contente em ficar com o filho, ele queria tambm controlar 
a vida dela.
       - Eu tento - ele riu -, embora nem sempre tenha conseguido acertar no alvo! Voc deve ficar satisfeita com esta informao, hein?
       Com esse comentrio enigmtico ele foi para o jardim, desabotoou a camisa, jogando-a sobre a grama, e se deitou sob o sol. Seu corpo era grande e musculoso, 
o estmago sem nenhuma barriga. Briony observava, mas desviou o olhar com medo da descoberta que havia acabado de fazer. Ainda o amava com paixo. Seu corpo descobrira 
isso antes que ela pudesse se dar conta. S no queria que ele soubesse, pois seria uma humilhao muito grande. Briony tapou a boca com a mo para evitar um grito 
de agonia. Como poderia suportar passar o resto da vida com Ken, fingindo que o odiava, principalmente se ele continuasse a provoca-Ia? Desejava que ele a possusse 
totalmente e, se isso acontecesse, acabaria se traindo. Decidiu que o melhor seria manter a maior distncia possvel entre eles. Jamais poderia permitir que os acontecimentos 
daquela tarde se repetissem. Se Nicky no tivesse chorado naquele exato momento, Ken a teria possudo sem encontrar a menor resistncia. Seu rosto queimava ao lembrar 
o comentrio dele sobre o final inevitvel daquele encontro. 
       Ela subiu para acordar Nicky e vestiu-Ihe uma camiseta e um short, sentindo-se satisfeita ao ver aqueles bracinhos e peminhas to gorduchos! Quando desceram, 
disse-lhe que fosse ao encontro do pai, tentando evitar o sentimento de cime, e fechou a porta quando Ken esticou um brao para, pegar o filho e o puxou para junto 
de si. Como eles so parecidos! No  pde deixar de pensar e reconheceu que a cada dia que passava Nicky estava mais apegado ao pai. 

CAPTULO VII

       - Vamos parar para comer alguma coisa.
       Briony concordou com a cabea.
       Eles estavam viajando de carro atravs de uma auto-estrada do norte da Frana, margeada de tantas rvores que o caminho parecia interminvel. Nicky havia 
adormecido no banco de trs, e o silncio pesava sobre eles.
       Ela no queria ter vindo para essas frias. Achava tudo aquilo muito arriscado... Desde que admitira que ainda amava Ken, fazia um esforo sobre-humano para 
manter-se fria e indiferente. Sentia-se cansada de representar e temia que ele pudesse perceber que o desejo e as necessidades de seu corpo a cada dia tornavam-se 
mais intensos e evidentes.
       Eles estavam viajando desde manhzinha, por isso ela se sentiu bastante aliviada ao poder esticar as pernas quando pararam para almoar numa cidadezinha francesa. 
Embora no quisesse admitir, era uma tranqilidade saber que Ken se encarregara de tudo. Ele providenciou rapidamente um lugar onde pudessem comer e explicou ao 
garom, num bom francs que desejava uma refeio leve para Nicky.
       Foram conduzidos a um ptio sombreado por glicnias que espalhavam seus galhos floridos pela parede branca do restaurante e, apenas a alguns metros dali, 
um riacho de guas lmpidas corria calmamente em direo ao mar. A paisagem era belssima.
       Briony se sentia cansada at mesmo para olhar o cardpio e simplesmente pediu a Ken que escolhesse por ela. Ele franziu a testa e por um momento pde perceber 
um certo ar de preocupao em seu rosto. Naturalmente Ken deve estar imaginando como vai cuidar de Nicky se por acaso eu ficar doente, pensou com sarcasmo.
       Enquanto tomava a sopa fria que o garom trouxera, Briony imaginava como seria a madrinha dele. Ken havia falado pouco a respeito dela, a no ser que todos 
os anos procurava passar alguns dias em sua companhia. Sabia ainda que era viva e morava no sul da Frana. Briony pensou logo numa senhora idosa, de porte nobre, 
bem penteada e maquilada e muito elegante, seguindo a moda francesa. Tudo isso a deixava um pouco apreensiva e com receio de conhec-Ia.
       - Termine sua sopa - ordenou Ken, trazendo-a de volta  realidade. Ela o olhou surpresa, s ento percebendo que havia afastado o prato sem toc-Io. - Voc 
est muito magra. Hloise ter um ataque quando avir.
       - Hloise?
       -  a cozinheira, criada, confidente e amiga da minha madrinha. Elas vivem juntas desde que tia Marian se casou.
       - Espero no incomod-Ias muito. - Ela ficou preocupada quando pensou no barulho e na intromisso de Nicky dentro do mundo organizado e calmo de duas senhoras 
de idade.
       - No se preocupe, elas iro gostar da nossa visita, a menos que Hloise me acuse de matar voc de fome. - disse ele secamente. - E se voc conseguir disfarar 
esse ar de vtima, ser um favor!
       Briony terminou a refeio em silncio. Parecia que Ken sentia prazer em faz-Ia passar por uma criana mimada e exibicionista que procurava chamar a ateno 
para conquistar a simpatia dos adultos.
       No ptio sombreado, o sol j estava ficando bastante quente e instintivamente ela olhou para a cabea desprotegida do filho, pensativa. O menino tinha sorte 
em ter o mesmo tipo de pele resistente do pai, por isso raramente o sol lhe fazia mal. Entretanto, ela havia tomado a precauo de providenciar um bon e algumas 
camisetas frescas para o  caso de Nicky se expor em excesso quele sol. A pele dela, ao contrrio, era bastante sensvel, mas Briony procurava sempre ter cuidado 
para no se exceder e queimar demais. Como se tivesse lido os pensamentos dela, Ken disse repentinamente:
       - Venha sentar aqui na sombra. Voc est muito branca, e eu no quero que pegue uma insolao.
       - Eu no sou nenhuma criana! - protestou ela, mas ele fez uma cara de quem no acreditava e olhou para o prato que Briony mal havia tocado.
       - No? Voc deliberadamente quase pegou uma estafa, recusa-se a comer o mnimo necessrio, e ento senta-se ao calor do sol do meio-dia. No, no  criana 
realmente! - ele falava com ironia e severidade.
       - Eu no ficarei doente. No posso! Quem cuidaria de Nicky?
       - Termine seu almoo. - Ele parecia muito aborrecido e Briony imaginou que ele estivesse pensando em como seria difcil cuidar de uma criana.

       Viajaram ainda durante toda a tarde, parando apenas em Avignon, onde passariam a noite. Briony estava to cansada que nem conseguiu apreciar direito a cidade. 
Por que ser, pensou ela, que ficar sentada o dia inteiro sem fazer nada  cansativo desse jeito? Observou Ken tirando Nicky do carro. Embora ele tivesse dirigido 
o tempo todo, no parecia abatido. A camisa fina estava colada aos msculos fortes das costas; as mangas curtas revelavam os braos bronzeados e as pernas compridas 
e sensuais eram realadas pela cala justa. Ela tambm usava cala e camisa, s que sua roupa, em vez de mostrar um corpo incontestavelmente msculo, revelava curvas 
muito femininas que atraam a ateno de vrios homens enquanto eles atravessavam a rua e entravam no hotel. Diante da insistncia de Briony, Ken havia reservado 
dois quartos.
       - Do que voc tem medo? - ele havia perguntado, e ela no ousou confessar que temia a si prpria.
       Se eles dividissem uma nica cama, mesmo que platonicamente, Briony estava certa de que durante a noite acabaria inconscientemente aproximando-se dele sem 
poder responsabiliz-lo pelas conseqncias.
       Cada quarto tinha uma cama de casal e um banheiro, e ela levou Nicky para um deles, deixando Ken ficar com o outro. J havia tirado a roupa de Nicky quando 
percebeu que a mala dela estava no quarto de Ken. Bateu na porta e, como no obteve resposta, deduziu que ele deveria ter sado por algum motivo e ento entrou. 
Ela estava se abaixando para pegar a mala do lado da cama quando a porta do banheiro foi aberta, e Ken surgiu. Seus cabelos estavam molhados e despenteados, e gotas 
de gua escorriam pela pele saudvel. Briony ficou vermelha ao ver aquele corpo nu, mas, inconscientemente, demorou para desviar o olhar. Sentiu-se fraca e trmula, 
com a boca seca por causa da tenso que a envolveu.
       - Pronto, voc j pode me olhar sem chocar essa sua mentezinha frgida - disse ele, vestindo um roupo curto de toalha, o que no a impediu de visualizar 
e pensar no que havia por baixo dele. 
       Briony sentia enorme necessidade de tocar aquela pele dourada, de experimentar o poder daquela masculinidade... Ela suspirou, nervosa, e apontou a mala.
       - Eu vim por causa da...
       - E para o que mais? - zombou ele. - Quero deixar uma coisa bem clara, Briony. Quando estivermos na casa da minha madrinha, dividiremos um nico quarto. Ela 
pensa que nosso casamento  normal e feliz e isto inclui tambm sexo, naturalmente!
       Ela o encarou horrorizada.
       - Mas ns no podemos!
       - Por que no? Eu nunca disse que esse casamento seria apenas no papel. Fique tranqila, isso no a matar. - Ela pensou no que sentia por ele e concluiu 
que seria impossvel dormir na mesma cama mostrando-se indiferente. Ken a alcanou e comeou a acariciar-lhe o pescoo. Aquele corpo mido e quente pressionava o 
dela com volpia. - Ns estamos casados - disse ele suavemente -, e no pretendo passar o resto da minha vida como um monge. Pense em Nicky. Certamente voc no 
quer priv-lo do prazer de ter alguns irmozinhos, quer?
       Briony hesitou, atormentada pela seduo que ele exercia. Seria to fcil ceder, sentir na prpria pele o calor da pele dele, entregar-se  forte exigncia 
fsica que a dominava. Perdida em meio  indeciso, ela permitiu que Ken lhe inclinasse a cabea e lhe acariciasse o pescoo com os lbios midos. Fechou os olhos, 
deixando-se envolver por uma fantstica rede de prazer.
       - O que voc est fazendo com minha me? - Ela abriu os olhos e, em outras circunstncias, teria rido da raiva de Nicky quando ele se voltou para Ken. - Voc 
me deixou sozinho! - acusou ele. - Faz tempo que voc saiu.
       - Pela ltima vez voc  salva pelo gongo - murmurou Ken ao ouvido dela. - Vamos, eu carregarei voc de volta ao quarto - ele se dirigiu ao filho, inclinando-se 
para pega-lo. - Ns no terminamos e da prxima vez farei o que disse - preveniu ele.
       Quanto mais para o sul eles viajavam, mais rida se tomava a paisagem. Briony estava ciente de uma tenso nervosa que no era inteiramente relacionada com 
o encontro prximo com a madrinha de Ken. Ele no havia feito mais nenhum comentrio sobre a noite anterior, mas ela sabia que a deciso dele era definitiva e, pior 
ainda, sentia que o prprio corpo desejava que Ken se impusesse fisicamente e a possusse com paixo, desobrigando-a do risco de ela mesma tomar a iniciativa. Ele 
j havia percebido a fragilidade da resistncia dela e estava apenas ganhando tempo e esperando o momento oportuno para cumprir as ameaas...
       Eles atravessaram a Cte d'Azur, que ostentava seus ciprestes, carvalhos, antigas oliveiras e os caractersticos pinheiros. O calmo silncio dominava a regio 
e por toda a parte podiam se ver suntuosas manses protegidas por portes de ferro batido. Em Nice, o brilho e o esplendor da Cte d'Azur explodiram surpreendentemente 
diante dos olhos despreparados de Briony, ao deparar com uma riqueza inacreditvel, desde a cor dos carros luxuosos que enchiam a cidade at as jias exibidas por 
corpos bronzeados e sedutores.
       - Em Nice, a maioria de todo esse brilho  do ouro macio de vinte e dois quilates - Ken comentou.
       Eles pegaram uma estrada que dava a volta por trs das rochedos de calcrio, uma regio que precedia os Alpes. Toda vez que faziam uma curva, Briony fechava 
as olhos, s para depois reabri-Ias e deliciar-se com a vista magnfica do azul do Mediterrneo que se espalhava abaixo deles. Aproximadamente vinte minutos aps 
terem deixado Nice, j haviam chegado a St. Jean com sua tranqilidade inabalvel e o porto pitoresco. 
       Nicky nunca tinha se aproximado do mar, s do lago. Do parque Regente, e, embora a travessia do canal no o tivesse impressionado muito, a viso daquele porto 
repleto de iates deixou-o boquiaberto.
       - Sua madrinha deve ser muito rica - comentou Briony, incapaz de conter a curiosidade. 
       Eles estavam passando por luxuosas propriedades, na regio mais bonita que ela j tinha visto, e a cada minuto ficava mais apavorada por ter de conhecer a 
madrinha de Ken.
       - Relativamente. O marido dela era um prspero homem de negcios. Morreu juntamente com meus pais num acidente de barco. Marian no havia ido com eles para 
cuidar de mim. Na poca eu tinha doze anos e nunca esqueci a expresso do rosto dela quando me deu a notcia. Eu at cheguei a culp-Ia pelo acidente, pois o convite 
partira dela. Precisou ter muita pacincia comigo.! No final, Hloise me fez sentir que eu no era o nico que estava sofrendo... Quando se vive uma tragdia dessas 
com algum, forma-se uma ligao profunda e indissolvel. Marian acabou tomando o lugar dos meus pais. Todas as frias da escola eu passava com ela. Voc descobrir 
que ela  uma senhora muito romntica - acrescentou. - A felicidade dela significa muito para mim, Briony. No a desiluda, por favor. Marian acredita que ns somos 
uma famlia feliz e cheia de amor. Estou tentando lhe avisar que, se voc quebrar essa iluso, eu nunca lhe perdoarei.

       Eles atravessaram os portes de ferro batido e dirigiram-se para uma casa que fez Briony prender a respirao numa mistura de encantamento e assombro. De 
um lado, podia-se ver o mar, e do outro, Nice. As paredes eram cobertas por antigas trepadeiras, e as janelas se abriam para um ar suavemente perfumado.
       Logo que o carro parou, uma mulher alta e elegante desceu graciosamente a escadaria em frente  casa; embora estivesse muito bem-vestida, no correspondia 
em nada  imagem que Briony havia formado. Quando Ken saiu do carro, ela correu para abra-Io e olhou-o com afeio, antes de ir ao encontro de Briony do outro 
lado do automvel.
       - Perdoe-me, querida, esqueci as boas maneiras! - exclamou ela. - Bem-vinda  Vila Jardim. - Um brao bronzeado indicou os jardins bem-cuidados que rodeavam 
a vila; cobertos de oleandros e hibiscos, buganvlias repletas de flores que contrastavam com os muros de pedra clara. - E este deve ser Nicky! - O menino olhou-a, 
confuso, e Briony sentiu um n na garganta quando Marian se voltou para Ken e disse: - Oh, meu querido, ele  to parecido com voc! Voc quer vir comigo e tomar 
um refresco? - perguntou a Nicky.
       Obviamente ela est acostumada com crianas, pensou Briony com alvio. Marian no forou Nicky a tomar uma deciso, at que ele olhasse para ela com mais 
familiaridade e anunciasse solenemente:
       - Quero!
       - Oh, espere at que Hloise os veja! - Marian deu um sorriso. - Ela est na cozinha preparando seu jantar favorito - informou ela a Ken. - Vocs vo ficar 
na sute mimosa, onde podero sentir-se  vontade e bem isolados. Tem uma sala que d para os jardins e de l uma escada que conduz  nossa praia particular. Ela 
 um pouco acidentada, por isso ns temos a piscina. E voc no deve se preocupar com Nicky. Hloise e eu adoraremos tomar conta dele. Ken me disse que voc no 
tem passado muito bem e que precisa descansar bastante. Parece mesmo, pobre criana! - Ken estava tirando a bagagem do carro e os olhos de Briony pousaram traioeiramente 
sobre os msculos tensos daquelas costas fortes... - Ken comentou que vocs no tiveram tempo de ter uma lua-de-mel - acrescentou Marian, deixando Briony desconcertada. 
- Espero que estas frias pelo menos sejam compensadoras. Agora eu vou levar Nicky at Hloise. Embora ela jamais admita, tem uma fraqueza por crianas e vai mim-Io 
terrivelmente. - Briony seguiu sua anfitri por um corredor azulejado que ia do ptio at uma sala decorada em tons de damasco e creme. - Voc deve estar querendo 
uma xcara de ch - ofereceu Marian com simpatia. - Vou pedir a Hloise que nos sirva enquanto Ken coloca a bagagem l em cima.
       Nicky andava de um lado para o outro da sala, olhando cheio de curiosidade para os elegantes abajures de porcelana chinesa, e Briony lhe ordenou que no tocasse 
em nada. A porta se abriu e uma mulher que Briony deduziu ser Hloise entrou na sala carregando uma bandeja com ch. Alta e forte, tinha cabelos escuros jogados 
para trs, ressaltando um rosto marcadamente oval. Ela correu os olhos por Briony, parecendo estud-la. Marian as apresentou e Briony teve a impresso de que Hloise 
era o tipo de pessoa que expressava claramente seus sentimentos. Principalmente se achasse que algo ou algum poderia perturbar a dona da casa.
       - E este  Nicky - apresentou Marian, chamando o garoto. Quando Hloise olhou para ele, Briony percebeu um olhar de aprovao, ficando surpresa por Nicky 
rapidamente concordar em ir para a cozinha com ela para tomar um copo de suco de laranja. - Ela se d bem com as crianas - explicou Marian quando eles saram. - 
Hloise s consegue se descontrair quando brinca com crianas, e acho que elas tambm gostam disso. Eu nem posso lhe dizer quanto estou feliz com o casamento de 
vocs - acrescentou, servindo uma xcara de ch para Briony. - Mas Ken estava certo...
       - E alguma vez eu errei? - perguntou Ken, abrindo a porta. Ele tinha trocado a camisa e a cala, e Briony tremeu de excitao. - Porm concordo que desta 
vez acertei em cheio!
       - Briony - disse Marian com um sorriso -, voc deve descansar um pouco. No se preocupe com Nicky, est bem? E se vocs dois quiserem sair sozinhos, ele estar 
seguro conosco. Voc deve cuidar de sua pele, querida. Parece que se queimou demais. Meu farmacutico prepara um creme excelente para evitar queimaduras. Amanh 
vou para Nice e aproveitarei para encomend-Io, o que me faz lembrar que eu ainda no lhes comprei um presente de casamento.
       - No tem importncia! - respondeu Ken. - Enquanto no acharmos um lugar fixo para morar, no temos onde guardar nada. Mas voc pode levar Briony para que 
ela compre um biquni. Minha esposa tem um corpo muito bonito, e eu no gosto de v-Ia com roupas que no lhe ficam bem.
       Marian se alegrou.
       - Uma corrida pelas lojas? timo, eu adoraria acompanh-Ia! Acho que agora  um pouquinho tarde para fazer um enxoval. - Ela riu. - Mas como essa  praticamente 
a lua-de-mel de vocs, penso que podemos abrir uma exceo, no  mesmo?
       - Na verdade, no  necessrio - comeou Briony, porm o desapontamento estampado no rosto de Marian e a expresso de aviso nos olhos de Ken a foraram a 
mudar de idia. - Mas  claro que se realmente no se importar...
       Quando ela terminou de tomar o ch, Marian sugeriu que Ken fosse lhe mostrar os quartos.
       - Nicky estar bem com Hloise e se vocs quiserem descansar um pouco ela cuidar dele. Aproveitem, meus queridos!
       Apesar de j estar preparada para ver muito luxo, Briony ainda ficou assustada ao descobrir que a sute mimosa era, na verdade, um enorme quarto de casal 
com banheiro privativo, uma parede toda forrada de armrios embutidos, um quarto de vestir conjugado, que Marian havia decorado lindamente para servir de quarto 
para Nicky, mais uma sala de estar muito bem-mobiliada com vista para Nice e um caminho que conduzia  piscina. Alm disso, havia uma entrada prpria que dava na 
vila.
       - Eu preciso perguntar a Marian se o porto que leva  praia   prova de crianas - disse Ken, enquanto Briony olhava, admirada pela janela. - Aqueles degraus 
so muito altos para uma criana, e as rochas podem ser perigosas. Ele sabe nadar? - Briony respondeu que no. Algumas vezes, ela levara Nicky  piscina pblica, 
mas sua falta de tempo no permitiu que ele a freqentasse com mais regularidade. - Bem, eu o ensinarei enquanto estivermos por aqui. Todas as crianas devem aprender 
a nadar antes que cheguem  idade de sentir medo. - Os tons creme e adamascado pareciam dominar a vila, notou Briony enquanto tirava as roupas da mala e colocava 
no enorme armrio embutido. A colcha e as cortinas tinham um motivo chins nas cores damasco e verde, com fundo creme, e esse mesmo tema se repetia no banheiro em 
preto e creme. Ela parou ao olhar para a cama. Estremeceu s de pensar que naquela noite estaria dormindo ao lado de Ken. - Por que voc no descansa antes do jantar? 
- sugeriu Ken, entrando no quarto. - Eu quero conversar um pouco com Marian.
       E com certeza eu no sou desejada, pensou Briony com tristeza. Ela tomou um banho e se deitou na cama, tendo o cuidado de fechar a porta do quarto. Pretendia 
repousar por pouco tempo antes de se vestir, apreciando o ar fresco sobre sua pele, mas estava com tanto sono que acabou fechando os olhos. Ainda fez uma tentativa 
para pegar o robe, mas adormeceu antes que pudesse faz-Io. Um vento frio bateu em seu pescoo, e Briony acordou. Passaram-se vrios minutos at que ela conseguisse 
lembrar onde estava. Olhou assustada para o relgio, incapaz de acreditar que havia dormido aquele tempo. Ken! Ser que ele tinha vindo procur-Ia e encontrara a 
porta fechada? E Nicky? O que Marian e Hloise pensariam dela? Olhou para a janela e percebeu que as cortinas estavam fechadas. No se lembrava de t-Ias fechado, 
e seu corao disparou quando viu um vulto surgir das sombras do terrao e vir em sua direo.
       - Finalmente voc acordou.
       Ken! Apressadamente ela tentou pegar o robe, mas ele o alcanou primeiro, medindo-a de cima a baixo e dizendo:
       - Ah, no! No faa isso... Voc fica to mais atraente sem ele. Quando entrei aqui e a vi to tentadora, deitada na minha cama, pensei que as coisas fossem 
melhorar.
       - No entendo como pde entrar. Eu tranquei a porta. 
       - Eu sei que voc trancou, mas voc se esqueceu da outra entrada, minha querida esposa. Agora, como Eva tentou Ado com o fruto proibido, voc despertou todo 
o meu apetite. - Ela tentou se afastar, mas Ken foi mais rpido. As mos dele escorregaram pela pele macia de Briony at segurar-lhe a cintura. Seu corao batia 
to forte que ela pensou que ele pudesse ouvi-Io, percebendo as exigncias que aclamavam por aquele corpo. - Eu disse a tia Marian que voc no queria jantar - comeou 
ele suavemente. - Voc no imaginou que eu pudesse arrombar a porta quando colocasse os olhos nesse corpo sedutor? Que pena que voc j tomou banho! - Riu ao notar 
o tremor que a invadiu quando ele passou os dedos pelo estmago dela, antes de se deitar a seu lado. - To tmida e encabulada! Se no fosse por Nicky e algumas 
recordaes particularmente agradveis, eu poderia at jurar que voc  virgem. Lembra-se do que me disse daquela vez? Como me pediu com doura para que eu a possusse 
completamente e como gritou de prazer quando eu o fiz?  -  Suas mos se moviam vagarosamente para cima e para baixo, acariciando delicadamente os seios sensuais. 
- Voc lembra, no lembra? - perguntou ele, junto ao ouvindo dela, com voz doce e sedutora.
       Briony tentou afast-Io, a palma das mos tremendo ao sentir o calor do corpo dele.
       - No! - Briony no sabia se essa resposta era uma negao para as palavras erticas que ele dizia ou para o que ela mesma estava sentindo, porm Ken pareceu 
no ter dvidas... Deitou-se sobre ela, prendendo-a com o peso do corpo e tentando encar-Ia.
       - No? - repetiu suavemente. - Ento tenho de faz-Ia relembrar... O ambiente era semelhante, ns estvamos deitados numa cama. Mas daquela vez voc me pediu 
para deix-Ia sentir todo o meu corpo contra o seu sem a interferncia das roupas...
       - No! - gritou Briony, desesperada. - Eu nunca falei nada disso! .
       - Talvez voc no tenha falado em alto e bom som, mas seu corpo dizia claramente ao meu que era isso o que voc queria. Eu at me lembro que voc me ajudou 
a tirar a camisa. Assim... - Ken disse com voz rouca, levando a mo dela at o prprio peito. Ele tirou a camisa de dentro da cala, puxando a mo de Briony para 
que sentisse o calor de seu corpo. O corao dela batia cada vez mais acelerado ao lembrar o passado. Ken murmurou: - Agora mostre-me o que vem a seguir. - Por alguns 
momentos ela fantasiou, imaginando o que aconteceria. As mos deslizando suavemente sobre a pele de Ken, os dedos acariciando cada centmetro daquele corpo, ignorando 
as ordens do crebro para parar com aquela explorao sensual e canalizar as energias para expulsar aquela invaso masculina dominadora. - Voc ainda est envergonhada? 
- perguntou ele. Levantou-se um pouco para estudar o delicado contorno do corpo dela. - Eu me lembro de ter enfrentado o mesmo problema da ltima vez, apesar de 
termos conseguido super-Io. Tire minha roupa, Briony. Adoro sentir voc me tocando.  - Ele a beijou apaixonadamente com os olhos brilhantes de desejo. - Voc me 
quer, querida? - Briony fez que sim com a cabea, no confiando em si para falar. Seu corpo inteiro tremia incontrolavelmente. - Ah, muito bem - murmurou Ken. - 
Agora ns estamos chegando quela mulher que voc escondeu por tanto tempo. Ela no era fria, era, Briony? - Ela sentia que no poderia mais resistir, mesmo que 
tentasse, e escorregou as mos, tateando, at os quadris de Ken. - Hum... eu sei - ele sussurrou, afastando-se levemente. - Assim  melhor? - Ken pegou as mos dela 
e levou-as at o prprio ventre. Quando Briony o acariciou com os dedos trmulos, ele gemeu profundamente, antes de beij-Ia com paixo. De repente, ela comeou 
a sentir uma necessidade de total satisfao que apagou todas as outras coisas. Aproximou o corpo provocantemente do de Ken obrigando-o a explorar cada centmetro 
de sua pele. Como se houvesse passado de um mundo para outro, deixando a realidade completamente para trs, Briony correspondeu apaixonadamente, seus lbios pressionando 
os dele, sentindo cada suspiro de prazer. Dessa vez, ela no era uma jovem inexperiente que precisava ser ensinada, e seu corpo agia por ela, experimentando sensaes 
de prazer nunca imaginadas. No momento em que Ken ia possu-Ia completamente, ela tentou reagir, mas a luta foi curta; seu corpo se contorcia de desejo mesmo quando 
os msculos se contraiam em protesto. - Isso... Assim... Est bem - sussurrou Ken, acariciando-a para que ela relaxasse, suas palavras confundindo-se com os gemidos 
de prazer de Briony quando ela atraiu novamente o corpo dele com uma paixo sincera.
       Ela adormeceu nos braos dele, com o corpo relaxado e os lbios ainda esboando um suave sorriso. Quando acordou estava sozinha. As antigas recordaes voltaram 
no mesmo instante, e ela entrou em pnico. No havia sinal de Ken, e alguma coisa em seu ntimo lhe dizia que ele no estaria l. Como num filme, todas as imagens 
do passado voltaram, todas aquelas lembranas recomearam a persegui-Ia. Briony se sentou na cama, abraando os joelhos com firmeza, olhando de um lado para outro 
dos espelhos quando Ken entrou.
       - Briony! - Ele tentou soltar os braos dela, mas eles estavam muito tensos. Briony o encarou, revoltada. - Voc pensou que ia deix-Ia? - perguntou ele, 
compreendendo imediatamente. - Oh, Briony... - Ken tentou abra-Ia, mas ela recusou, com os olhos cheios de amargura.
       - Por favor, deixe-me sozinha.
       Ele ficou furioso.
       - H alguns momentos voc no estava dizendo isso. Pelo contrrio...
       Briony estava desesperada. Mais alguns minutos, e Ken poderia descobrir como se sentia em relao a ele! E ento riria dela! Como um homem que se casara nessas 
condies poderia ser cnico com relao ao amor!, pensou totalmente aturdida.
       - Foi apenas por causa de Nicky - disse ela. - Eu no quero que ele seja filho nico!
       Por um momento pensou que Ken a agrediria pois ele ficou plido de raiva.
       - Meu Deus, voc quer dizer que... Mas  claro que foi por Nicky. As necessidades dele vm em primeiro lugar e, por ele, voc se sacrifica, aceitando dormir 
comigo! Francamente, eu no sei se devo rir ou chorar.
       - Voc foi o primeiro a dizer que ele precisava de uma famlia - explicou Briony, receosa. Agora, no entanto, j tinha ido longe demais para recuar. - Era 
o que voc tambm queria.
       - Era? Como voc sabe o que quero? Voc  incapaz de saber porque tambm  incapaz de sentir. Voc nem imagina as necessidades que motivam uma pessoa. Provavelmente 
deve at pensar que eu fingi... - Ele se virou repentinamente. - Um dia Nicky vai crescer e ento o que voc vai fazer do resto da sua vida? Em algum lugar bem no 
ntimo do seu ser existe uma mulher verdadeira, e eu no vou desistir at conseguir faz-Ia renascer.
       - Por qu?
       - Por qu? Talvez porque voc tenha me insultado como homem. Meu orgulho certamente no ter sossego at que eu a possua totalmente e a torne uma verdadeira 
mulher. No se preocupe, no tentarei repetir a dose esta noite. J agentei demais por hoje. Voc sabe como castrar um homem, no , Briony? Bem, vou dormir com 
Nicky... No suportaria dormir na mesma cama com voc.
       O que eu fui fazer?, pensou Briony, com tristeza, depois que ele saiu do quarto. Meu Deus, tudo estava perdido! Agora Ken no descansaria at que conseguisse 
subjug-Ia e destru-Ia completamente. Isso aconteceria se ele quisesse levar as ameaas adiante. E ela sabia que o faria. Quando se deitou na enorme cama, pensou 
em pegar Nicky e fugir imediatamente, mas Ken estava com os passaportes e, alm disso, ela no tinha dinheiro. Se pelo menos conseguisse sobreviver a essas frias, 
assim que chegassem  Inglaterra pediria o divrcio.
       Adormeceu mas acordou em seguida, molhada de suor. Em seu sonho, um juiz ordenava, calmo, que Nicky fosse cortado ao meio para ficar igualmente dividido entre 
os pais. 

CAPTULO VIII

       As lojas de Nice deixaram Briony maravilhada. Marian tinha um escocs exilado que trabalhava como motorista e jardineiro da vila, e ele levou-as at a capital 
dos alpes martimos. Briony j havia se desculpado por ter adormecido e deixado Nicky com ela por tanto tempo, mas Marian apenas lhe deu um largo sorriso, afIrmando 
que no ficasse preocupada.
       - Hloise vibra com as crianas, e Nicky j se tornou a menina dos olhos dela - disse a Briony, que havia notado por si s, durante o caf da manh, que isso 
era verdade.
       Ken no apareceu para tomar caf, e quando Marian disse que ele tinha ido nadar, e no voltaria antes que elas tivessem sado, Briony conseguiu relaxar e 
apreciar os croissants e a gelia de pssego servidos no caf. Na verdade, Marian estava errada. Briony fIcou pasma quando elas estavam entrando no carro e Ken apareceu, 
beijando-lhe o pescoo antes de abra-Ia. Briony lembrou que Marian os observava, e ela ento imaginou que aquele abrao era para seu prprio bem. A menos que ele 
j tivesse comeado a procurar aquela mulher que acreditava existir dentro de Briony.
       - O que voc acha desse biquni? - perguntou Marian, chamando a ateno de Briony para um minsculo biquni de seda verde-esmeralda amarrado dos lados.
       -  escandaloso demais - disse Briony com sinceridade. - E o preo tambm.
       Marian riu.
       - Acho que vai lhe servir. Vamos entrar e experimentar para ver como fica em voc. - Seria intil dizer no, pois Marian parecia querer resolver tudo sozinha. 
O biquni foi comprado, apesar dos protestos de Briony assim como dois shorts sumrios e uma camiseta listrada de verde e branco. - Voc trouxe algo especial para 
a noite? - perguntou Marian, quando saram da loja. - Ken est louco para lev-Ia a um dos cassinos. Durante o dia voc pode usar qualquer roupa, mas  noite, e 
principalmente nos cassinos, todo mundo costuma ir muito chique e com trajes da ltima moda. - Briony tinha levado dois vestidos de algodo, seu mai, calas jeans, 
algumas camisetas e um casaco para as noites mais frias, mas no havia pensado em outros detalhes. Entretanto, no queria gastar mais dinheiro consigo mesma e deixou 
isso bem claro. Marian ficou espantada. - Querida, eu adoraria gastar mais com voc. Afinal, tenho mais que o suficiente para viver. Seu marido, porm, no  da 
mesma opinio e me deu instrues para mandar todas as contas para ele, sem deixar que voc se preocupe com os preos, claro! So palavras dele, no minhas. Estou 
to feliz por ele, Briony. Houve uma poca em que pensei que nunca mais iria v-Io sorrir. Eu fazia uma idia errada de voc. Deixe-o pagar tudo para voc se isso 
lhe d prazer, est bem? Voc  uma pessoa de sorte! H muitos maridos mesquinhos espalhados por a...
       Como Briony acabou por confessar que no tinha trazido nada especial para usar  noite, Marian a levou at uma pequena boutique. A dona da loja estava elegantemente 
vestida de preto. Marian lhe disse alguma coisa em francs.
       - Muito bem, madame - disse ela num ingls carregado, depois de olhar para Briony. - A senhora deseja parecer uma grande dama ou uma coquette? Com esses olhos 
e cabelos tudo  possvel!
       - O que ela quer - interrompeu Marian -  um vestido bem romntico, para sair com o marido de quem estava separada h trs anos.
       Briony ia falar alguma coisa quando a vendedora arregalou os olhos e disse em francs:
       - Querida, o que voc quer  impossvel! Voc deseja recuperar em uma noite o tempo perdido?
       Marian riu.
       - E a senhora vai arrumar o vestido adequado, no ?
       A vendedora tambm sorriu, e Briony ficou sem entender.
       - Talvez. Sentem-se, por favor. Verei o que posso fazer.
       Ela se afastou por uns quinze minutos e, durante esse tempo, Briony achou melhor ficar quieta. O silncio durou pouco. Marian disse calmamente:
       - Se voc quiser, ns podemos conversar mais tarde, Briony. Antes de sua chegada, eu disse a mim mesma que a aceitaria pelo bem de Ken, mas acho que j estou 
comeando a gostar de voc pelo que . Tenho certeza de que...
       Quando a porta se abriu, Marian interrompeu a frase. Briony ficou maravilhada ao ver o vestido que a vendedora trazia. Era de tafet preto, a saia tinha vrios 
babados  e a blusa era de renda trabalhada, muito delicada.
       - Experimente - disse Marian, olhando para o rosto de Briony.
       O tafet roava delicadamente sobre sua pele. A cor escura do vestido realava a pele plida e os cabelos loiros. Quando ela saiu, hesitante, do provador 
para mostr-Io, Marian ficou admirada.
       - Querida! - exclamou ela. - Voc est encantadora!
       - Eu sugeriria um pente cravado de strass para prender seus cabelos - aconselhou a vendedora, puxando o cabelo de Briony para trs. - Ou ento algumas flores 
de cetim.
       Antes que Briony pudesse pensar no preo, o vestido j havia sido embrulhado, e elas estavam saindo da loja. Marian comentou:
       - Minha querida, o vestido  lindssimo e tenho certeza de que valer cada centavo aos olhos de Ken. Voc no est com receio de que ele fique zangado, no 
?
       O que realmente preocupava Briony eram as concluses a que ele poderia chegar quando a visse usando aquele vestido.
       - Acho que vou guard-Io at a noite para fazer-lhe uma surpresa - disse, achando que talvez Marian fosse sugerir que Briony mostrasse todas as compras logo 
que chegassem  vila. 
       Ao ver a expresso de desapontamento dela, Briony certificou-se de que suas suposies estavam certas. E o sentimento de culpa por decepcion-Ia aumentou 
ainda mais quando Marian insistiu em comprar um conjunto para dar de presente a Nicky, e ela no permitiu.
       - Voc no sabe o que representou para mim conhecer Nicky - confidenciou ela quando j estavam voltando  vila. - Briony, Ken  o filho que nunca tive, e 
Nicky... bem, ele  a miniatura de Ken, e v-lo me fez recordar muitos momentos de felicidade.
       - E receio que infelizes tambm - disse Briony, lembrando que Ken lhe contara que seus pais tinham morrido no mesmo acidente que o marido dela. - Voc nunca 
pensou em se casar de novo? Pois devia ser muito jovem quando... - Mordeu os lbios, temendo que pudesse tocar em alguma ferida, mas Marian acariciou a mo dela 
e sorriu.
       - No se preocupe, querida, voc no est me aborrecendo. Eu tinha trinta e dois anos quando Grard morreu. Mas j estvamos casados h oito e, apesar de 
no termos tido filhos, nossa unio foi to repleta de amor e felicidade que eu nunca consegui pensar em casar novamente. Acho que voc pode compreender, Briony... 
quando se conhece o verdadeiro amor,  muito arriscado tentar substitu-lo. Quase sempre no se tem sorte. A felicidade que dividi com Grard me manteve atravs 
de todos estes anos de viuvez. Eu tenho muitos amigos, tenho Ken e Hloise, e agora tenho voc e Nicky, portanto ainda sou muito feliz!
       A primeira pessoa que Briony viu quando saiu do carro foi Ken, que tomava sol deitado ao lado da piscina. A segunda foi uma morena cheia de curvas que estava 
passando bronzeador nas costas dele. O cime tomou conta de Briony, que ficou paralisada, enquanto Marian passou correndo por ela, exclamando com surpresa:
       - Louise, pensei que voc estivesse em Paris!
       A morena jogou mais bronzeador nas costas de Ken e espalhou-o com movimentos sensuais.
       - Pois , eu no fui. Como senti muito calor e no tinha nada para fazer, lembrei-me de voc e da sua piscina e resolvi me distrair um pouco - disse ela, 
com relutncia.
       - E eu que pensei que a atrao fosse eu, hein? - brincou Ken, virando-se para poder olhar Briony.
       Comparada com a garota francesa, com seu minsculo biquni vermelho, Briony se sentiu plida e desajeitada. A blusa estava grudando nas costas e a saia de 
algodo de repente parecia infantil e antiquada. 
       - Louise, venha conhecer Briony, a esposa de Ken disse Marian, e Briony percebeu que aquele tom de voz soou como um aviso para a outra. 
       Ser que Marian pensava que Louise tentaria provocar Ken, e que ele, incapaz de resistir aos encantos, acabasse cedendo? Mesmo que Louise no tentasse flertar 
com seu marido, jamais poderiam ser amigas, decidiu Briony. A garota francesa parecia daquele tipo de mulher exibicionista e desinibida, capaz de fazer amor com 
qualquer um, e seus olhos brilharam quando Ken se levantou para estudar o rosto abalado de Briony.
       - Espero que voc tenha seguido minhas instrues - ele disse suavemente.
       - Que  isso, chrie? - perguntou Louise, provocante. - Que instrues voc deu  sua esposa?
       - Que ela comprasse um biquni bem sexy - brincou Ken, deixando Briony mais sem graa.
       Louise mostrou-se espantada.
       - Ao contrrio de ns, franceses, os ingleses so muito puritanos, no? Imagine! Se eu fosse casada com um homem como voc, a primeira coisa que eu dispensaria 
seria o biquni. - Louise riu. .
       Briony sentiu-se ofendida. Louise estava seduzindo Ken na frente dela, e ele, como todos os homens, estava completamente envolvido. Olhou-o com ressentimento, 
suspirando quando ele se virou para ela, compreensivo.
       - Entretanto, veja, Louise, minha esposa sabe que eu gosto de descobrir sua beleza por mim mesmo, devagarinho, especialmente quando ela est tentadoramente 
vestida dos ps  cabea para que eu possa explor-Ia - acrescentou ele, pousando os olhos demoradamente nos quadris de Briony, como se a estivesse despindo mentalmente.
       Briony ficou novamente corada. E nesse momento prometeu a si mesma jamais usar o biquni verde na presena de Ken. 
       Ela sentiu-se aborrecida quando descobriu que Louise iria ficar na vila.
       -  bem tpico dela convidar-se para ficar por aqui - comentou Marian enquanto almoava com Briony. 
       Comiam po fresco com pat feito em casa, quando Nicky se sentou entre elas para tomar um lanche. Louise convenceu Ken a acompanh-Ia at Nice para fazer 
algumas compras e, apesar de Marian ter sugerido que Franois, o jardineiro e motorista, a levasse, a garota insistiu dizendo que preferia ir com Ken.
       - Voc no se importa em me emprestar seu marido por algumas horas, no ? - perguntou Louise a Briony. - Afinal, ns somos amigos ntimos h tanto tempo! 
Alm disso, Ken me disse que voc passa a maior parte do tempo cuidando de Nicky... Para dizer a verdade, acho as crianas maantes.
       Amigos ntimos! Sem dvida ela quisera dizer amantes, pensou Briony com amargura. Ken haveria se queixado dela para Louise?
       O sol estava quente, e Briony levou Nicky para dentro. Ele contou-lhe, animadssimo, que o pai o estava ensinando a nadar. Briony procurou prestar ateno, 
porm estava distante e s conseguia pensar em Ken e Louise juntos. Quando Nicky subiu para dormir, ela foi procurar Marian, mas Hloise disse-lhe que ela costumava 
descansar  tarde.
       - Louise sabe disso - disse Hloise com firmeza. -  por isso que voc est a sozinha enquanto aquela leviana tenta roubar seu marido!
       - Eu no me importo - disse Briony sem convico. - Acho que vou tomar um pouco de sol. A cor de Louise me deixou com inveja.
       - Sua pele  muito clara e delicada e, se no tomar cuidado, poder se queimar seriamente - preveniu Hloise.
        Aceitando o conselho, Briony pegou um bronzeador e colocou seu mai preto. Levou tambm uma sada-de-banho para cobrir-se se fosse necessrio. Ela passou 
o bronzeador pelo corpo e deitou-se de costas, tentando relaxar. Pouco depois j estava dormindo. O toque suave de algum mexendo em seus ombros a acordou, e ela 
olhou sonolenta para Ken.
       - Onde est Louise? - perguntou, procurando pela francesa.
       - Ela ainda est fazendo compras - respondeu Ken, com um tom seco. - Eu me cansei e vim embora. Quando ela terminar, telefonar para que Franois v busc-Ia. 
Eu preferi voltar para ver a minha linda esposa.
       - Pare! - gritou Briony. - S ns dois estamos aqui e no h necessidade de encenao romntica.
       Ele brincava com a ala do mai, e ela se afastou irritada, olhando-o furiosamente quando Ken recomeou a falar:
       - O que  isso? Alguma relquia da poca de estudante? Eu no lhe disse para comprar algo mais moderno?
       - O problema  meu se no quero me expor como sua "amiguinha ntima" Louise.
       -  o que veremos! - Antes que ela pudesse adivinhar as intenes dele, Ken pegou-a no colo, ignorando seus protestos. Levou-a para o quarto, onde a colocou 
na cama e segurou-a com um brao, enquanto com o outro remexia nas compras que ela deixara sobre a cama. Ele deu um sorriso irnico quando viu um pacote, onde deveria 
estar o biquni. - Se no me engano, acho que aqui vou encontrar o que procuro. Tia Marian deve ter seguido minhas instrues mesmo contra a sua vontade. 
       Ele deu um sorriso de satisfao quando pegou o minsculo biquni e isso deixou Briony furiosa.
       - O que pretende fazer? Voc est querendo me transformar numa mulher vulgar?
       Ela deveria ter mordido a lngua quando disse isso; entretanto, em vez de ficar zangado, Ken observou-a com sarcasmo.
       - Isso nunca, querida. O que pretendo fazer, querida puritana,  transform-Ia numa mulher quente, vvida e adorvel, que no se envergonhe de sua sexualidade 
nem da minha apreciao.  - Por um momento ele correu os olhos pelo corpo dela e Briony tremeu quando Ken levantou-a, colocando-lhe o biquni nas mos, antes de 
abrir a porta do banheiro. - Voc tem cinco minutos, enquanto eu fico de costas, para colocar esse biquni! Depois disso, se no estiver com ele, eu mesmo o colocarei 
em voc e garanto que vou adorar o passatempo. - Ela demorou quatro minutos e, quando estava pronta, pensou que no conseguiria encarar Ken com aquela pea minscula 
e sexy. - Muito bem - disse ele, caminhando em direo  porta. - timo! - Novamente mediu-a de cima a baixo, aprovando o corpo esbelto. - Este tambm tem laos! 
       - No se atreva! - exclamou Briony, com ansiedade, recuando.
       Ela no queria se olhar no espelho quando entrou no quarto, porque j sabia que o biquni era sumrio demais. Eles foram para o sol, e Briony deitou-se de 
costas, fechando os olhos, decidida a ignorar o barulho da cala e da camisa de Ken sendo jogadas no cho a seu lado.
       - Voc passa o bronzeador nas minhas costas? - perguntou ele.
       Briony se virou e respondeu:
       - Se voc insiste, embora ache que no consiga faz-lo com a mesma habilidade que Louise.
       - Com cime?
       - Claro que no! - Ela colocou o creme na palma das mos e massageou com firmeza as costas bronzeadas de Ken, tentando no ficar excitada quando os msculos 
dele relaxavam sob seu toque.
       - Hum... Agora nas minhas pernas - murmurou Ken.
       Ela quis recusar mas, em vez disso, colocou o creme sobre as pernas de Ken, esfregando com mais fora: Sabia que a inteno dele era perturb-Ia com a viso 
daquele corpo msculo, e o pior de tudo  que estava conseguindo. Briony, porm, estava determinada a no demonstrar qualquer reao.
       - O resto voc pode fazer sozinho - disse ela, tampando o pote.
       Quando ele se levantou da espreguiadeira e se deitou ao lado dela, Briony comeou a tremer.
       - Um pouco forte demais, mas muito agradvel. E agora, querida,  a sua vez! - Como seria intil protestar, ela nem tentou, procurando ficar calma enquanto 
as mos dele corriam pelo seu corpo. Apenas uma vez, quando os dedos se aproximaram dos laos provocantes que prendiam o biquni, Briony se moveu, mas Ken a ignorou 
e continuou: - Aqui no - disse ele, quando ela o olhou. - Esse  um prazer que quero reservar para mais tarde...
       - No haver mais tarde! E por favor, pare de me machucar!
       - Machuc-Ia? Pelo amor de Deus, Briony, s vezes voc me provoca, mas desta vez vou tentar ignorar.
       - Uma briga de amantes! - exclamou Louise. Nenhum dos dois ouvira Louise se aproximar. Ela olhou docemente para Ken, embora no conseguisse esconder a raiva 
quando percebeu o corpo bem-feito de Briony. - Esta noite voc precisa me levar ao cassino, chri - pediu ela a Ken. - Sinto que hoje  meu dia de sorte!
       - Ento iremos ao cassino - concordou Ken. - E levaremos Marian conosco.
       Louise ficou emburrada.
       - Tia Marian no gosta de cassinos.
       - E acho melhor no contar comigo - disse Briony descuidadamente. - Nicky...
       - Ele ficar muito bem com Hloise - Ken falou, suave.
       - Realmente, chri! - interferiu Louise com rispidez. - As inglesas so estranhas! Eu jamais largaria meu marido por causa de um garoto!
       - Nem mesmo quando esse garotinho  filho de seu marido? - perguntou Briony calmamente e com um frio desprezo. - Por favor, me desculpem. Nicky deve estar 
acordado e no quero que se sinta sozinho. Ele pode ficar assustado.
       Por um momento, ela pensou ver aprovao no olhar de Ken, mas logo ele se virou para Louise, admirando-a. O que ele estava tentando fazer? Provar que achava 
Louise uma bonita mulher? Briony disse a si mesma que no se importava, mas no era verdade; ela estava sofrendo, e muito.

       Briony vestiu-se sem entusiasmo, olhando insegura para o seu reflexo no espelho. Quando ela resolveu tirar o vestido preto, Ken entrou no quarto.
       - No me diga que foi voc quem escolheu! - exclamou ele, com um sorriso.
       Cheio de incerteza, Ken passou os dedos pelas flores de cetim que ela havia colocado nos cabelos.
       - Voc no gostou? 
       Ele a estudou criticamente antes de responder:
       - Acho que qualquer homem adoraria.
       O corpete fino moldava o busto. O tecido preto ficava perfeito sobre a pele clara de Briony, e a cintura delgada destacava-se pela saia rodada. 
       - Eu ia ler um pouco para Nicky - disse ela, nervosa, enquanto ele no desviava os olhos de seu corpo.
       - Nicky tem sorte! Espere por mim, vou trocar de roupa e poderemos descer juntos para o jantar.
       Nicky arregalou os olhos quando a viu, e Briony riu quando ele gostou do perfume que ela estava usando. Um dia ele seria to msculo quanto o pai e admiraria 
as mulheres bonitas, assim como Ken. Nicky tinha acabado de dormir quando Ken entrou no quarto. Ele estava vestido com traje a rigor, a cala preta e justa fazendo 
com que parecesse mais alto, e a camisa branca e o palet dando-lhe um toque de elegncia indiscutvel. Ele beijou o filho, que o abraou mesmo sonolento. Nicky 
agora tinha um pai, e era impossvel negar o grande amor que um sentia pelo outro. Todas as frases que Nicky dizia pareciam comear com as palavras "Papai disse". 
Seria fcil ficar com cime, admitiu Briony, mas sentia-se aliviada ao ver que algo de bom tinha surgido desse frustrado casamento. 
       Ao ver Briony, Louise fez uma expresso que denotou inveja. Ela estava usando um vestido vermelho de cetim, que salientava suas curvas sensuais.
       Como eles iam sair, Hloise preparou apenas uma refeio leve. Estava deliciosa, e Briony tomou dois copos de vinho antes de perceber que a haviam servido 
novamente. No fiz bem em beber, refletiu ela um pouco tonta ao se dirigir para o carro. Marian insistiu para que Louise a acompanhasse em outro carro, deixando 
Briony e Ken sozinhos. Quando desceram pelo Grande Comiche, a cidade brilhava abaixo deles, o azul-escuro do Mediterrneo decorado com iates carssimos que eram 
adornados com luzes multicoloridas. Ken estacionou junto ao porto, e eles passaram pelo brilhante conjunto de embarcaes antes de se afastarem da costa. Ele pegou 
o brao de Briony para conduzi-Ia pela rua. O leve contato provocou-lhe desejos loucos e difceis de serem sufocados.
       O cassino estava barulhento e cheio de gente. Briony olhou as mesas com espanto e aterrorizada s de pensar que algum pudesse perder grandes somas com tanto 
sangue-frio. Louise sorriu para ela com ar de superioridade. Ela e Marian estavam esperando pelos dois no salo de recepo e, logo que entraram, Marian foi vista 
por um grupo de velhos amigos que ficaram felizes em encontr-Ia e ansiosos para que ficasse na companhia deles. 
       - Voc vai danar comigo, no vai? - pediu Louise a Ken. - Ns sempre danamos to bem juntos... Como tudo o que fazemos... Que sintonia perfeita, hein?
       - Voc est esquecendo que agora sou casado e devo danar apenas com minha esposa - disse Ken secamente.
       Ele comprou um monte de fichas e deu algumas para Briony. Ela seguiu as instrues dele cuidadosamente, mas logo a pequena pilha desapareceu.
       - Voc no  uma boa jogadora - comentou Louise, com desdm. - Deveria ter apostado tudo num nico nmero.
       - Briony  muito equilibrada para jogar tudo ou nada. - Seu sorriso zombeteiro feriu Briony profundamente. - Mas estou tentando ensin-Ia, pacientemente...
       Louise queria beber alguma coisa e, quando Ken se voltou para chamar um garom, eles foram separados pela multido animada. Uma sensao de pnico apoderou-se 
de Briony quando ela o procurou ansiosamente; as pessoas pareciam pression-Ia tanto que ela chegou a sentir-se sufocada. Finalmente pde ver Ken. Ele estava de 
costas para ela, com Louise nos braos. Quando ela conseguiu alcan-Ios, o sorriso da morena era triunfante.
       - Eu quase ca, e Ken precisou me segurar, o que ele fez com muita elegncia - acrescentou ela, beijando Ken levemente nos lbios. 
       Algo explodiu dentro de Briony. Ela quase tinha sido esmagada pela multido, e Ken preocupou-se somente em evitar que Louise casse!
       - Est muito abafado aqui dentro - disse ela friamente. - Vou sair para tomar um pouco de ar. Encontrarei com voc no carro quando estiver pronto para irmos 
embora, Ken.
        Briony saiu antes que qualquer um dos dois tivesse tempo de falar. Ela tentava conter as lgrimas com as mos, procurando respirar fundo aquele ar fresco 
e ouvindo o mar. Tinha acabado de atravessar a rua quando Ken a segurou pelo brao.
       - O que est acontecendo com voc? - perguntou, com raiva. - Sua tola! Nem mesmo olhou para atravessar a rua!
       - Talvez eu esteja cansada de olhar - disse Briony, furiosa. - Especialmente para voc e Louise. Por que voc no volta para ela? Tenho certeza de que ela 
conseguir satisfaz-Io melhor do que eu em todos os sentidos...
       - Voc est esquecendo apenas de que no foi ela quem gerou meu filho - disse Ken suavemente.
       - E  essa a nica razo por termos casado! Desejo que voc se lembre disso e pare de me atormentar com esse amor fictcio. Procure Louise, vamos! Tenho certeza 
de que ela ficar muito grata e satisfeita.
       - Sei disso. Porm j tracei minha meta e no quero desistir dela antes de alcan-Ia.
       Eles estavam perto do carro, e Ken abriu a porta. Briony entrou, ignorando-o e amarrando o cinto de segurana. A estrada ngreme conduzia para fora da cidade, 
deixando o mar embaixo. O caminho estava deserto, e Ken de repente parou o carro.
       - O que voc est fazendo? - perguntou Briony, com frieza, quando ele se aproximou.
       Ken a abraou, sufocando-a com violncia. Depois, com a voz muito seca, murmurou enigmaticamente:
       - Apenas colocando em prtica uma pequena teoria.
       Os lbios dela se abriram com irritao, tremendo sob a forte presso daquela boca mida. Mas Ken queria sentir toda a doura daquele beijo. Algo havia abalado 
o autocontrole de Briony. A cena do cassino a tinha deixado insegura e desprotegida, e ela desejava ardentemente colocar os dedos entre os cabelos del e pedir-lhe 
que a levasse a um lugar onde nada existisse alm dos dois, onde pudesse esquecer que Ken realmente no a amava. O beijo tomou-se mais apaixonado, e ela suspirou, 
empurrando-o subitamente ao lembrar como ele havia segurado Louise. Ken a deixou e ligou o motor do carro. Briony no conseguia decifrar a expresso que havia no 
rosto dele. Ela mesma estava desapontada? Recusava-se a pensar nessa possibilidade! Era degradante querer ser possuda por um homem que procurava apenas satisfazer 
os prprios instintos animais. Alm disso, talvez Louise j o houvesse satisfeito plenamente.
       Briony mal percebia o esplendor do ambiente. Eles estavam voltando para a vila sozinhos e agora, embora fosse tarde, ela lamentava no ter esperado pelas 
duas outras mulheres. Ken brinca comigo o tempo todo, pensou com tristeza, e talvez coloque em prtica as ameaas s pelo prazer de me punir. Na noite passada, aps 
terem feito amor, ela havia adormecido imediatamente; naquela noite, porm, deitada ao lado dele, ciente daquela presena perturbadora, tinha certeza de que no 
conseguiria conciliar o sono... 

CAPTULO IX

       Ao chegarem  vila, o telefone tocava. Ken atendeu e pela conversa Briony deduziu que era Louise. Isso foi confirmado quando ele desligou.
       - Louise pediu que eu v busc-Ia. No vou demorar muito.
       Briony deu de ombros, esperando que ele no notasse o cime que ela sentia.
       - No tenha pressa!
       Ela foi para o quarto e pde ouvir o carro se afastando. S ento admitiu quanto esperava que Ken tivesse se recusado a ir. Se ele no fosse, os dois ficariam 
sozinhos naquele ambiente romntico... Permaneceu ainda algum tempo junto  janela, olhando para a escurido da noite, e ento Nicky murmurou alguma coisa enquanto 
dormia, o que fez com que ela se desse conta do motivo de estar naquele lugar, casada com Ken. 
       J era tarde quando ela o ouviu chegar. Puxou as cobertas, tentando respirar como se realmente estivesse dormindo e afastando-se o mais que podia do lado 
da cama onde Ken se deitaria. Ela escutara os passos dele e procurava adivinhar-lhe cada movimento. Pareceu uma eternidade at que Ken fechasse o chuveiro e voltasse 
para o quarto. A ento ele ergueu as cobertas e se deitou. Briony tinha vontade de se voltar e ver o que Ken estava fazendo, mas se o fizesse ele saberia que ela 
ainda estava acordada. Sentia a garganta seca de tanta tenso e, quando ele se virou, roando-lhe as costas, seu corpo ficou rijo numa tentativa de no tremer. Se 
no fosse por Marian, de quem ele tanto gostava e no queria chocar ou magoar, ser que nessa noite Ken estaria nos braos de Louise? Ele se mexeu novamente, e ela 
ficou gelada, arregalando os olhos quando Ken disse, zombeteiro:
       - Boa noite, Briony! Sonhe com os anjos, minha querida.
       Durante todo o tempo ele sabia que estava acordada! Que prazer no teria sentido ao permitir que ela fingisse daquela maneira! Ele me fez de boba, pensou 
com raiva, desejando vingar-se. No entanto, percebeu que Kenj dormia profundamente enquanto ela, com insnia, era atormentada pelos pensamentos do que poderia ter 
acontecido entre ele e Louise. Sem dvida, se eles dividissem a mesma cama, estariam um nos braos do outro, concluiu enciumada.
       Ela acordou de madrugada, envolvida por um delicioso calor, com um som forte junto ao ouvido. Quando se mexeu, percebeu que eram as batidas do corao de 
Ken. Em algum momento durante a noite, Briony devia ter se virado para o lado dele, aninhando-se quele corpo quente que a abraava, com uma das mos sobre seus 
seios. Ken dormia profundamente e ela tentou se afastar, mas ele a apertou imediatamente. Com medo de que ele pudesse acordar e descobrir o que havia feito, Briony 
procurou relaxar, sem perceber que Ken sorria enquanto ela voltava a dormir. Quando acordou novamente Nicky estava chamando por ela. Ainda sonolenta, pde notar 
que o menino estava sentado na cama, junto dela, com um olhar de reprovao.
       - Pensei que voc no ia acordar! Meu pai vai me ensinar a nadar, e eu quero tomar o meu caf, mame. - Briony escutou aquela exigncia masculina, tentando 
dizer a Nicky que o caf poderia ficar para mais tarde. - A mame no quer acordar - disse Nicky, dirigindo-se ao pai, e, antes que ela pudesse protestar, as cobertas 
foram retiradas por uma mo masculina.
       Ken estava de p na frente dela, vestido com jeans e uma camisa fina de algodo desabotoada at a cintura. Ele riu quando viu a indignao de Briony.
       - Vamos, preguiosa, levante-se! Nicky e eu j estamos acordados h muito tempo, no , filho?
       Nicky concordou.
       - O papai precisou me vestir - disse ele a Briony, com ar acusador.
       Ela olhou para o relgio. Eram sete e meia da manh!
       - Pobre papai - disse ela friamente.
       Ken inclinou-se sobre a cama com malcia e murmurou:
       - O papai tambm vestir a mame se ela pedir com jeitinho.
       Briony pulou da cama, e olhou-o, furiosa, quando ele riu enquanto ela procurava pelas roupas que ia vestir.
       - No demore, mame. Ns temos uma surpresa para voc - disse Nicky logo que ela entrou no banheiro. - Posso pular nessa cama? - Briony ainda ouviu o menino 
perguntar a Ken. 
       Sentiu uma leve angstia ao pensar em Ken, dando banho e vestindo o filho, e ela dormindo sem saber de nada. O quarto estava vazio quando ela voltou. Rapidamente 
ajeitou a cama, indo para o quarto de Nicky para arrum-Io. Hloise havia dito para que no se preocupasse com isso, que ela estava na vila passando frias, mas 
a fora do hbito a fazia executar essas pequenas tarefas domsticas automaticamente. Briony mostrou-se satisfeita ao notar diante do espelho que sua pele j estava 
levemente bronzeada. Escovando os cabelos, reparou que seus olhos brilhavam suavemente... Era bvio demais que ela apresentava os sintomas inconfundveis de uma 
mulher profundamente apaixonada. Precisava redobrar os cuidados para que Ken no descobrisse aquela verdade. 
       Quando foi para o jardim, todos j esperavam por ela. O rosto de Nicky exprimia excitao e impacincia.
       - Posso falar agora? - perguntou ele ao pai.
       Ken concordou e, quando Briony o olhou, curiosa, Nicky gritou:
       - Feliz aniversrio, mame! Venha ver o que comprei para voc! - De repente ela se deu conta de que, com o casamento e as frias, tinha esquecido completamente 
de seu aniversrio. Nicky estava muito excitado e s nesse momento Briony percebeu a pequena pilha de presentes ao lado de seu prato. Sentiu um n na garganta. H 
muito tempo ningum se lembrava do aniversrio dela. Ken levantou-se e caminhou em sua direo, enquanto ela tentava conter as lgrimas. Marian estava sorrindo compreensiva, 
e Briony no teve vontade de se afastar quando Ken segurou-lhe a mo, enlaando seus dedos carinhosamente. Quando o olhou, Briony sabia que era ele o responsvel 
por aquela surpresa e recordou-se dos longos dias quentes de vero que partilharam anos atrs, quando Ken lhe oferecera lindas rosas e um delicado frasco de perfume, 
brindando o aniversrio dela com champanhe francs... Fazia tanto tempo! Mesmo assim sentia-se emocionada por ele ter lembrado. - Abra o meu primeiro - pediu Nicky. 
-  aquele! Ele apontou um pequeno pacote embrulhado com um bonito papel cor-de-rosa e laos prateados. Era uma echarpe azul degrad, muito bonita e sofisticada, 
e Briony adorou-a. - Eu e papai escolhemos - disse Nicky, todo importante. - Voc gostou?
       - Adorei, meu amor! - Briony deu-lhe um beijo.
       Havia cartes de felicitao de Hloise e Franois e um perfume delicioso como presente de Marian, alm de uma fotografia de Nicky emoldurada por um lindo 
porta-retratos prateado.
       - Oh, voc no deveria ter feito isso - protestou ela impulsivamente, beijando Marian com doura. - Muito obrigada. Por falar nisso, onde est Louise? - perguntou, 
determinada a no deixar que notassem seu embarao por saber que no haveria nenhum presente de Ken.
       - Louise ainda no levantou - disse Marian, interrompendo aqueles pensamentos tristes. - E voc, Ken, no comprou nada para Briony?
       Ela desejava que essa pergunta jamais tivesse sido feita. Mas Marian imaginava que o casamento deles fosse perfeitamente normal e esperava ateno e gentileza 
de Ken para com a esposa.
       - Comprei, sim - respondeu ele, deixando Briony surpresa. Ele parecia se divertir ao ver o rosto vermelho dela. - Prm, para evitar que ela fique constrangida, 
achei melhor entregar o presente quando estivermos sozinhos. Na verdade - ele se levantou -, eu ia lhe pedir para fazer companhia a Nicky enquanto ns vamos at 
o quarto. - Marian riu e disse-lhe que ele estava deixando Briony corada. - Eu sei - foi a resposta dele. - E gosto muito disso! - No havia jeito de Briony recusar 
aquele convite e, com um sorriso forado, agradeceu a Marian por cuidar de Nicky. Levantou-se e seguiu Ken. Quando ele abriu as janelas da sala de estar do quarto, 
ela hesitou, e Ken a encarou. - Assustada? Fique tranqila! Espero com meu presente despertar aquela mulher maravilhosa h tanto tempo adormecida. Aqui est. Tomara 
que goste! - Ele lhe entregou um grande pacote embrulhado com papel de seda vermelho e amarrado com fitas brancas. Briony apanhou o pacote, confusa, passando os 
dedos pelo papel pensativamente. - Abra - pediu Ken com suavidade. - Marian no descansar at que saiba o que . Voc realmente consegue ser uma mulher intrigante 
- acrescentou ele quando viu que ela permanecia imvel com o pacote nas mos. - Qualquer outra mulher estaria morrendo de curiosidade.
       Percebendo que no poderia sair do quarto at que abrisse o pacote, Briony hesitou ainda um pouco antes de desmanch-Io. Surpreendeu-se ao ler o nome da loja, 
mas isso no foi nada em comparao  expresso que fez ao abrir a caixa e ver, espantada, seu contedo. Seus dedos passearam sobre um delicado suti em cetim cor 
de damasco debruado com renda branca, uma calcinha da mesma cor, to sumria que ela achou-a indecente, uma cinta-liga rendada, tambm minscula, e um par de meias 
de nailon com risca. Havia ainda uma camisola de seda finssima e um nglig combinando, mas Briony mal conseguia toc-Ios. Seu rosto passou de plido para um vermelho 
intenso quando viu todas aquelas peas de seda pura.
       - Como voc ousou me comprar um negcio desses? - perguntou finalmente, com a voz embargada de tanta fria. - Como se atreveu?
       - Eu queria que se lembrasse de que era feminina - disse Ken, que estava de p olhando para ela, com as mos nos bolsos da cala, aparentemente descontrado. 
Mas Briony percebeu que ele demonstrava uma certa ansiedade, o que a deixou angustiada. - Ou foi apenas para lembrar a mim mesmo - continuou, o rosto alterado pela 
raiva, quando ela subitamente jogou a caixa no cho. - No havia nenhum outro motivo especial.
       Briony no sabia exatamente por que tinha ficado to furiosa com o presente. Talvez pelo fato de nunca mais ter pensado em si mesma desde o nascimento de 
Nicky... Ultimamente suas roupas ntimas eram muito simples e baratas. No pde mais se dar ao luxo de escolher lingeries atraentes e nem mesmo se sentia motivada. 
Ao ver aquelas delicadas peas de seda, lembrou que um dia havia desejado vestir-se apenas para agradar aquele homem...  
       - Saia daqui - disse ela, calma. - No existe nenhuma mulher adormecida, Ken, voc a destruiu completamente. 
       Virou de costas e, quando se voltou, ele j havia sado. Como uma sonmbula, pegou as peas de seda, dobrou-as e guardou-as novamente na caixa. Seria o presente 
ideal para Louise, no para ela! Abriu uma gaveta e escondeu a caixa cuidadosamente antes de retomar ao jardim.
       
       - Tud bem, Briony? - perguntou Marian, preocupada. - Voc me parece um pouco plida.
       - Estou bem. Onde est Nicky? - Ela olhou em volta  procura do filho.
       - Oh, Louise queria ir at Nice, por isso Ken a levou e Nicky foi junto com eles. - Marian estava aborrecida. - Sinto muito por Louise ser to inconveniente, 
querida. A me dela  uma velha amiga minha, mas a filha nunca me agradou muito. .
       - Ela me parece fantica por homens - comentou Briony secamente, adivinhando o que estava preocupando sua anfitri. - Estou certa em pensar que ela e Ken 
j tiveram um relacionamento mais ntimo?
       Marian deu um leve sorriso.
       - Como voc  sensata, minha querida, achei que fosse se incomodar somente com as investidas de Louise. Posso lhe afirmar que Ken nunca sentiu nada alm de 
um interesse passageiro por ela. Foi durante um vero em que ele esteve muito doente, e, naquela poca, eu mesma a encorajei. Queria v-Io curado e tentaria qualquer 
sada para que se reanimasse. Foi uma fase terrvel. E receio de que eu tenha ficado muito magoada com voc, Briony. De fato, hoje posso ver que voc  bem diferente 
da mulher que eu imaginava.
       - Magoada comigo? - perguntou Briony, assustada. - Acho que no estou entendendo.
       Marian pareceu um pouco confusa.
       - Oh, minha querida, no quero tocar em feridas antigas, mas, quando Ken chegou da frica doente daquele jeito, eu tinha certeza de que voc era a nica culpada. 
Voc sabe, ele j havia me contado sobre a primeira carta, mas eu o persuadi a escrever novamente. Achava que voc acabaria cedendo. Ele me colocara a par de tudo. 
No entanto, quando a carta dele voltou sem resposta... Bem, cheguei mesmo a odi-Ia. - Calou-se ao ver o rosto plido de Briony. - Oh, querida, sinto muito! No 
deveria ter tocado nesse assunto. Ken me avisou para no...
       - Estou contente por voc ter me contado - disse Briony, com voz trmula - porque, acredite, eu nunca escrevi para Ken em toda a minha vida. No depois de 
ele ter me abandonado, deixando-me sozinha para enfrentar a imprensa. Nem mesmo quando eu soube que esperava um filho e todo mundo parecia estar contra mim. Jurei 
nunca faz-Io. Ele havia deixado bem claro que no queria mais nada comigo...
       - Nada com voc, Briony? Minha filha, voc est redondamente enganada - interrompeu Marian, zangada. - Como, se depois que voltou doente da frica ele s 
pensava e falava em voc? Pensei que nunca mais pudesse se recuperar e escrever para voc foi minha ltima esperana. Imaginei que vendo voc e ouvindo sua voz teria 
vontade de viver... Era como se quisesse morrer, mas o corpo dele reagiu, mesmo contra a prpria vontade.
       - Por favor... do que voc est falando? Ken me deixou depois de vasculhar o apartamento em busca de provas que ele precisava para o caso Myers, e eu nunca 
mais o vi. Acordei naquela manh... - Ela interrompeu-se, levemente corada - esperando encontrar-me nos braos dele e em vez disso estava completamente sozinha. 
Mas no final daquele dia a histria de Ken j estava estampada em todos os jornais e eu estava sendo interrogada incessantemente pela polcia que queria saber qual 
era meu envolvimento no caso.
       Marian suspirou.
       - Oh, minha querida, sinto muito! Compreendo agora por que voc se sentiu to magoada.
       - Esperei que ele entrasse em contato comigo - continuou Briony como se Marian no tivesse falado. - Durante todo o tempo que o caso ficou nos tribunais eu 
ainda tinha esperana de v-Io, porem no aconteceu nada... absolutamente nada!
       - Minha pobre criana! - Marian olhou-a com compaixo. - Como ele poderia entrar em contato com voc? Depois que a notcia explodiu, Ken foi enviado pelo 
jornal para ser correspondente de guerra em Angola, substituindo um jornalista que havia sido ferido e passava muito mal. Ele lhes pediu tempo... tempo para explicar 
a voc por que no tinha sido capaz de lhe contar sobre o caso Myers, mas eles foram inflexveis. Poucos avies recebiam permisso de entrar e sair de Angola e ele 
foi obrigado a partir naquela mesma manh.
       - Ele poderia ter feito alguma coisa antes de partir. Escrito algum bilhete...
       O olhar de Marian era confuso.
       - Mas ele escreveu um bilhete! Ele mesmo me contou, embora com relutncia. Ken no  o tipo de homem que faz confidncias com os outros, mesmo que sejam amigos 
ntimos. Ele escreveu pedindo que voc confiasse nele e o esperasse, dizendo que explicaria tudo logo que voltasse.
       - Eu no recebi nada - disse Briony vagarosamente, tentando se recordar da exata seqncia dos acontecimentos daquela terrvel manh. Havia chegado correspondncia 
naquele dia? Sim, havia algumas cartas para Susan, e ela as deixara na cozinha. Entretanto, ao voltar, Briony notou que no estavam mais l. Um dos vizinhos a procurou 
e informou-lhe que Susan tinha sado na companhia de alguns policiais. Susan! O sangue subiu-lhe ao rosto. Ser que a carta de Ken chegara durante a manh e Susan 
a lera?
       Ser que por amargura e ressentimento ela a havia destrudo ou guardado como um meio de vingar-se mais tarde de Briony, que inocentemente tinha sido causadora 
da runa do irmo dela?
       - Em que voc est pensando? - perguntou Marian astutamente.
       - Uma colega que morava comigo, cujo irmo foi condenado. Ela voltou ao apartamento naquele dia.
       - E ela pode ter pego a carta? Claro! Ken disse que deixou instrues para que fosse entregue em suas mos.
       - Mas isso no explica por que ele no tentou entrar em contato comigo depois. Com certeza...
       - Ele no podia - disse Marian gentilmente. - Quando estava em Angola, Ken foi preso e permaneceu na priso por seis meses. Finalmente, conseguiu fugir e 
alcanar a fronteira, onde foi encontrado delirando. Demorou mais seis semanas at que tivesse alta do hospital. Ele estava macrrimo e havia contrado uma febre 
violenta. Por um longo perodo parecia ter perdido a memria, e s quando chegou aqui para se recuperar  que fiquei sabendo do relacionamento de vocs. Ele me contou 
todos os detalhes, mas fique tranqila. - Briony a olhou espantada, e Marian acrescentou: - Bem, eu disse que Ken havia contrado uma febre terrvel e por isso delirava 
muito. No era preciso ser inteligente para descobrir que a "Beth" por quem ele chamava continuamente tinha grande importncia na vida dele. Quando se recuperou, 
eu lhe falei sobre o assunto, e Ken ento me contou tudo. Estava muito amargurado com os acontecimentos. Havia pedido ao editor do jornal que esperasse at que tivesse 
tempo de contar a voc para publicar a histria, mas eles sabiam que, se no o fizessem imediatamente, outra pessoa o faria. Por algum tempo pensei que Ken fosse 
morrer. Ele no se esforava para se recuperar e eu, desesperada, o convenci a me dar seu nome e endereo e lhe escrevi pedindo que entrasse em contato conosco. 
Quando a carta voltou sem ser aberta, Ken ficou muito transtornado, tornou-se duro e calado... e ento Louise veio passar uns tempos conosco. Ela o fez rir novamente, 
e eu sabia que ele iria viver.
       Uma mistura de emoes deixou Briony quieta. Ento ela disse em voz baixa:
       - Eu mudei de l. Precisei tambm mudar de nome, por causa da publicidade. Ao deixar o apartamento comprei uma casa, para viver com Nicky... 
       As lgrimas escorreram pelo seu rosto. Subitamente ela estava chorando como no fazia h anos, e Marian a confortava como a uma criana.
       - Acho que voc precisa de uma xcara de ch - disse ela firmemente quando Briony conseguiu se acalmar.
       Briony respondeu com um leve sorriso. 
       - Um remdio para todos os males do mundo! - Briony ficou imaginando se Marian no achava estranho que o prprio Ken no a tivesse informado sobre tudo isso, 
e ento compreendeu, pelo olhar sagaz dela, que Marian no tinha sido inteiramente iludida pelos dois a respeito daquele casamento.
       - Voc o ama, no ama?
       Briony tentou sorrir. 
       - O que voc diria se eu dissesse que no?
       - Iria cham-Ia de mentirosa - respondeu Marian, com sinceridade. Depois sorriu. - Como hoje  seu aniversrio, Hloise est preparando um jantar especial 
para esta noite. Dar conselhos sempre foi muito fcil, Briony, mas segui-Ios  difcil. Apesar de todos os esforos que vocs esto fazendo para esconder os problemas, 
posso notar que as coisas no vo indo muito bem... Ele  um homem muito orgulhoso e acho improvvel que d o brao a torcer mais uma vez. Procure mostrar-lhe seus 
sentimentos... e no se arrepender! Voc ainda tem o elo mais importante que poderia ter... Nicky - disse suavemente enquanto Briony parecia confusa. - Mesmo pensando 
que ele a tinha abandonado voc deu  luz a seu filho e ainda o ama. Permita que isso seja a ponte de ligao entre vocs dois.
       As revelaes de Marian deixaram Briony pensativa pelo resto do dia. Quando Louise e Ken voltaram de Nice, ela ficou observando Ken ensinar Nicky a nadar, 
percebendo que Louise estava ressentida com a ateno que Ken dispensava ao filho.
       - Vamos sair para jantar esta noite? - sugeriu Louise, quando saiu da gua com um minsculo biquni branco, colocando-se estrategicamente onde Ken no pudesse 
deixar de notar aquelas curvas sedutoras.
       - Hoje  o aniversrio de Briony, e Hloise est preparando algo especial para comemorarmos - disse Marian, com firmeza. - Mas se voc quiser sair, Louise, 
sinta-se  vontade, est bem?
       Por um momento Briony percebeu que Louise ficou indignada. Ento, parecendo indiferente, ela disse com desdm:
       - Ento  seu aniversrio! Ken lhe deu algum presente?
       A suspeita de que Louise havia comprado aquelas roupas ntimas desapareceu e foi substituda por um tom de malcia na voz de Briony.
       - Sim. E acho que vou us-Io hoje  noite.
       Louise ficou confusa, e Ken fingiu no ter ouvido. Entretanto, as revelaes de Marian encorajaram Briony a agir como nunca havia feito antes! Estava desinibida 
e pronta para reconquistar o amor dele, voltando a ser aquela mulher ardente e sincera que um dia Ken tinha amado com paixo.
       - Veja, mame, estou nadando! - exclamou Nicky, batendo as mos na gua com euforia, enquanto Ken o segurava.
       - timo, querido! - Briony sorriu com admirao, enquanto pensava em todas as roupas que havia trazido para as frias. No podia usar outra vez o vestido 
preto e no tinha nada adequado para um jantar de comemorao. - Ser que Franois poderia me levar at Nice? - perguntou a Marian. - Ultimamente meus aniversrios 
no tm sido comemorados e no tenho nada especial para vestir hoje.
       Marian deu uma gargalhada.
       - Que mudana para uma garota que ontem mesmo disse que no precisava de nada! - brincou ela. -  claro que ele pode lev-Ia, querida. Voc se importa se 
eu for junto?
       
       Desta vez Briony estudou cuidadosamente cada loja. Sabia exatamente o que queria, e Marian olhava para ela surpresa enquanto Briony examinava e deixava de 
lado vrios vestidos.
       - O que voc esta procurando? - perguntou ela com curiosidade.
       Briony sorriu.
       - Algo que possa ser usado sobre roupas ntimas de seda e renda.
       Por um instante Marian arregalou os olhos, mas logo riu, surpresa.
       - Ah, agora estou entendendo... o misterioso presente de aniversrio! Eu conheo um lugar cuja especialidade  roupa de seda. Voc quer ir at l?

       Meia hora depois elas voltavam para o carro, ambas satisfeitas com as compras. A boutique tinha exatamente o que Briony desejava. Um conjunto de duas peas, 
com a saia de seda num tom adamascado e uma blusa da mesma cor tambm de seda, toda bordada, sem mangas e com um recorte embaixo do busto, debruado com um provocante 
e fino babado, abotoada na frente com pequenas prolas. Ela comprou ainda um par de sandlias altas.
       - O preo est razovel para esse tipo de calado - falou Briony enquanto pagava.
       Marion olhou surpresa para ela e falou:
       - Agora estou comeando a compreender o que Ken quer dizer quando se refere a outra mulher que existe dentro de voc. Ela deve estar ressurgindo com toda 
a fora, querida.

       Briony esperou intencionalmente at que Ken terminasse de se aprontar para comear a se vestir. Marian tinha lembrado que tais comemoraes precisam de algo 
muito especial para beber e pediu a Ken que sasse para comprar.
       - Champanhe, claro! - Briony ouviu Marian dizer enquanto Ken a seguia, saindo da sala de estar da sute. - Hloise preparou um pato com laranja delicioso!
       Quando ele desapareceu, Briony tomou uma ducha demorada, ensaboando-se com os sais de banho que costumava usar. Quando saiu da gua, enxugou-se e aplicou 
delicadamente um creme perfumado sobre o corpo todo. Suas mos hesitaram ao tocar as peas de seda. Nunca em toda a vida tinha tentado deliberadamente seduzir um 
homem como estava fazendo naquela noite, e por isso mesmo no podia nem pensar em falhar. Quando se olhou ao espelho, com a saia e as sandlias, percebeu que seu 
bronzeado j estava acentuado. Ia colocando a blusa quando a porta se abriu e Ken entrou, ficando paralisado ao v-Ia. Parecia sinceramente satisfeito em observ-Ia 
e ento, com um sorriso compreensivo, disse brincando:
       - Muito bem, afinal eu estava certo. - Correu os dedos pela blusa de Briony, e ela estremeceu. - Gostaria de saber o motivo dessa mudana to repentina! - 
Antes que Briony pudesse responder, ele se afastou, deixando-a desapontada. - Enquanto voc termina de se vestir eu vou descer e ver Nicky. A menos,  claro, que 
voc precise de ajuda.
       Olhou-a com desejo, e Briony desejou ardentemente ter a coragem de dizer: "Sim, por favor..." No entanto, no conseguiu reagir, ficando totalmente emudecida 
e, embora a olhasse com carinho, Ken saiu do quarto, deixando-a sem outra alternativa a no ser colocar ela mesma a blusa e aboto-Ia com os dedos trmulos. 
       Quanto  maquilagem, Briony passou apenas um pouco de rmel e batom. O leve roar da seda em sua pele fez aumentar ainda mais o desejo de que Ken a tocasse 
e a possusse demoradamente. 
       Louise olhou, carrancuda, quando ela apareceu na sala de jantar. Briony mediu-a dos ps  cabea, observando o modelo do vestido e detendo-se no decote: estava 
usando um vestido preto e justo, mas a cor escura deixava a pele dela muito plida e, honestamente, Briony achou que, entre as duas, naquela noite ela, sem dvida, 
estava mais atraente.
        Eles iniciaram o jantar com um refrescante coquetel de frutas, seguido de um suculento pato assado com molho de laranja e alguns legumes cozidos, servido 
de uma maneira como s os franceses sabem fazer. Briony tomou o vinho branco, corando a cada vez que percebia Ken olhando-a. Depois comeram crepes suzetes com morangos 
frescos e, apesar de ela recusar, Ken insistiu em servi-lhe champanhe. Quando terminaram, Briony sentia-se um pouco tonta.
       Marian sugeriu que fossem para a sala de estar, onde comeou a conversar com Louise, sobre a me dela. Briony molhou os lbios, desejando que Ken viesse sentar-se 
a seu lado. Ele vestia uma roupa social que o deixava um pouco mais magro.
       - Acho que vou me deitar - disse Briony, esperando que ningum percebesse que estava hesitante. 
       Eram apenas dez horas, mas com certeza Kel tambm iria... Olhou para ele, desejando que se virasse e dissesse que iria acompanh-Ia, mas Ken permaneceu calado, 
e Briony percebeu que Marian a fitou com simpatia quando ele se virou para sair da sala. No quarto ela se sentou na beira da cama, tentando prestar ateno a cada 
som, mas quase meia hora se passara e nem sinal de Ken! As esperanas comearam a desaparecer e a excitao comeou a transformar-se em tristeza. Ser que no tinha 
deixado as intenes bem claras ou ser que ele no estava mais interessado...  Briony esperou mais quinze minutos e ento saiu da casa, seguindo o caminho que levava 
 praia. O barulho das ondas contra as pedras era reconfortante. A noite estava quente e havia uma suave brisa. Dominada por uma necessidade incompreensvel, Briony 
tirou vagarosamente a saia e a blusa de seda, colocando-as com cuidado fora do alcance da gua. Quando a brisa comeou a bater em sua pele ela hesitou, mas depois 
acabou se despindo completamente e entrou no mar.  Nunca tinha nadado  noite e muito menos despida, e agora sentia-se um pouco chocada com aquele impulso. Mas experimentar 
a sensao da gua do mar batendo em seu corpo nu era deliciosamente ertico. Ela se jogou contra as ondas, segura por saber que a praia era particular. Quando viu 
uma sombra vindo pela praia, quase morreu de susto. Ela boiava imvel, enquanto o vulto se dirigiu  pequena pilha de roupas, ento, vagarosamente, retirou as suas, 
entrando no mar com passos largos at que conseguisse nadar tentando alcan-Ia.
       - Ken... - murmurou num suspiro e calou-se, pois a intensa excitao alertou-a de que era melhor ficar quieta.
       Nadou languidamente, afastando-se, quando ele quase chegou perto. Estava certa de que Ken a seguiria e ento, quando a alcanasse, ele a abraaria, mergulhando-a 
sob aquela gua, para beij-Ia at que a falta de ar os fizesse vir  tona.
       - O que est acontecendo com voc esta noite? - perguntou ele, quase sussurrando.
       - Estou querendo apenas ser uma mulher, Ken - falou docemente, tentando escapar dos braos dele e mergulhando, provocante.
       Ele nadou com maior rapidez, alcanando-a e abraando-a suavemente quando ela se virou em direo  praia. Ao sarem da gua, parecia natural que Ken a carregasse 
nos braos, sem dizer nada, at um pequeno trecho de areia que o mar havia limpado com suas ondas. Ele a deitou no cho, cobrindo-a com o prprio corpo. Em completo 
silncio Briony levou as mos ao rosto dele, acariciando-o suavemente antes de beij-Io com paixo, ao mesmo tempo que Ken comeava a explorar o corpo dela com movimentos 
suaves e sensuais. Ela o beijava com paixo enquanto suspirava a cada toque leve e atormentador de Ken. Suas mos comearam a acariciar febrilmente o corpo dele, 
enquanto seus lbios beijavam aquela pele com ardor. Ken suspirou profundamente logo que ela o abraou, moldando o corpo ao dele, incitando-o a possu-Ia num redemoinho 
de prazer interminvel. No havia mais lugar para vergonha ou timidez quando Briony passou possessivamente os braos pelo pescoo de Ken, prendendo os lbios aos 
dele e sendo novamente atormentada com aquelas carcias msculas e sensuais. A demora de Ken em possu-Ia era insuportvel, e Briony contorcia-se febrilmente sob 
ele, implorando o que ele se negava a fazer, com os braos tentando traz-Io de novo para junto de si. Ele segurou as mos dela, afastou ainda mais o prprio corpo 
e, olhando para o rosto de Briony, disse com a respirao ofegante:
       - Agora diga-me que voc no  uma mulher, Briony, e que no sabe o que  sentir e querer possuir algum quando est morrendo de desejo. - O pnico tomou 
conta dela, Ken no a olhava mais com paixo, mas com um olhar to frio que a deixou amedrontada. - Vou lhe ensinar mais alguma coisa... - Ken continuou - e tenho 
certeza de que voc ser uma excelente aluna, porque vou lhe mostrar o que  se sentir rejeitado como voc vem fazendo comigo o tempo todo. E para lhe explicar isso 
no preciso fazer absolutamente nada, preciso, Briony? - ele perguntou, com maldade. - A nica coisa que devo fazer  sair daqui nesse momento. Nada de sexo sem 
amor, voc me disse uma vez, e  exatamente o que penso. Foi bom enquanto durou, mas agora acabou.
       Sem dizer mais nada, ele se virou e a deixou deitada na areia. Enquanto seu corpo doa de frustrao, Briony sentia-se humilhada e destruda, insegura diante 
daquela recusa. Porm, sabia que se Ken voltasse e resolvesse possu-Ia, mesmo assim no teria foras para resistir. Depois de algum tempo conseguiu voltar para 
o quarto. No havia sinal de Ken, embora ela nem esperava que ele estivesse l. Tentou esquecer o desejo que seu corpo sentia. Havia ficado to atormentada com os 
prprios sonhos, quando Marian lhe contou tudo, que nem pensou no que a rejeio tinha representado para Ken e os sentimentos dele. Era natural que ele quisesse 
se vingar. Ela tambm no havia sentido a mesma nsia de vingana? Agora estava magoada, pois Ken a vencera, como tinha prometido. Experimentou o sofrimento decorrente 
daquela rejeio e nem por isso ficou com dio dele. Pelo contrrio, eles estavam vivendo o tempo todo num grande equvoco.
       Deveria ter conversado com ele primeiro, pensou com tristeza. Deveria ter explicado que nunca recebera aquelas cartas e que nunca soubera o que lhe havia 
acontecido. Ser que isso teria adiantado? Ser que a amargura dele j no era profunda demais? Se Ken ainda tivesse um mnimo de sentimento por ela, certamente 
esta noite teria deixado todas as barreiras de lado... Briony comeou a se sentir cansada. Depois do que acontecera, estava fraca demais para pensar em qualquer 
soluo vivel para sua situao. Poderia encarar Ken novamente sabendo como havia se exposto a ele? "Nada de sexo sem amor", ele afirmou, e agora Ken sabia que 
ela o desejava, pois tinha se trado abertamente, encorajando-o a possu-Ia. As lgrimas comearam a correr pelo seu rosto enquanto Briony se virava de um lado para 
o outro na enorme cama vazia. Ela precisava ser perdoada... 

CAPTULO X

       - Vi voc e Ken na praia ontem  noite - disse Louise durante o caf da manh. Briony ficou corada e decidiu no tirar os olhos dos croissants. Onde Ken teria 
passado o resto da noite, j que no voltara mais para o quarto? - Vocs estavam na praia, no estavam? - Louise pressionou Ken.
       - Briony sentiu vontade de nadar. - Isso foi tudo o que Ken disse, mas Briony ficou corada s de pensar que Louise havia visto os dois na intimidade ou o 
que acontecera logo depois.
       Pouco depois Louise recebeu um telefonema de Paris e voltou para o jardim muito mais animada.
       - Era um amigo - disse ela, deitando-se na espreguiadeira. - Jean Paul quer que eu volte para casa. O que voc acha, chri? - perguntou ela, provocando Ken. 
- Devo ir?
       - Essa deciso cabe unicamente a voc - respondeu Marian, com firmeza. - Jean Paul tem tido muita pacincia com voc, Louise, mas tome cuidado, ningum consegue 
esperar eternamente. E, pelo que sua me me contou, ele  um homem de negcios muito bem-sucedido. No jogue fora a sorte!
       Com certeza, essas palavras tinham tocado no ponto certo, porque depois de alguns minutos Louise pediu licena e correu para dentro, voltando mais tarde apenas 
para explicar que reservara uma passagem no prximo avio que partiria de Nice para Paris.
       - Voc me leva ao aeroporto, Ken?
       Briony desculpou-se e saiu, no querendo presenciar a garota francesa tentando seduzir abertamente seu marido. 
       A agradvel brisa da noite anterior desapareceu, transformando-se num vento forte, e a temperatura caiu vrios graus. Dizer que estava com dor de cabea no 
era mentira; at Nicky parecia um pouco abatido. Foi Hloise quem explicou o que tinha ocorrido, quando lhe trouxe um comprimido.
       - Isso acontece por causa do Mistral. Ele sempre mexe com as pessoas - disse ela, sem se preocupar.
       O remdio deixou Briony sonolenta. Ela no sabia se Ken havia levado ou no Louise at o aeroporto. Ser que a moa sabia alguma coisa do passado deles?, 
perguntou-se, com ressentimento. J tinha lutado uma vez pelo amor de Ken e no conseguira nada; por que ento pensava que agora seria diferente? Seus pensamentos 
estavam muito confusos. Fechou os olhos e logo em seguida adormeceu.
       Acordou depois de algum tempo, sobressaltada, estranhando o silncio que envolvia o lugar. Algo lhe dizia que o perigo era iminente. Onde estava Nicky? J 
tinha passado muito tempo da hora de ele descansar e com certeza Hloise a teria acordado se fosse coloc-lo na cama. Tremendo de medo, Briony entrou correndo no 
quarto do filho. Um dos sapatos do menino estava jogado no cho e o adorado patinho dele descansava sobre a cama. Convencendo-se de que precisava reagir, Briony 
foi at a cozinha. No havia nem sinal de Hloise e, mordendo os lbios, lembrou que Marian tinha dito que ela e Franois tiravam sempre a mesma tarde de folga.
       - Assim Franois leva Hloise at a casa da famlia dela e depois a traz de volta - tinha explicado a Briony. - Franois tem alguns parentes que cuidam de 
um bar e sempre vai visit-Ios.
       A cozinha vazia fez seu pnico aumentar. Onde estavam todos? E Nicky? Ela foi at o quarto de Marian, esperando que ela estivesse descansando, mas a cama 
estava arrumada.
       - Nicky! - chamou, quase sem voz.
       O medo dominou-a ainda mais quando ela saiu da casa em direo  piscina, temendo a cada minuto descobrir o corpo inerte de seu filho boiando na gua azul. 
A piscina tambm estava vazia. Sentia-se febril e confusa. Revistou a vila e os jardins de ponta a ponta, chamando por Nicky at que ficou sem voz. Todos deviam 
ter sado pensando que Nicky estivesse com a me, com quem ele deveria estar realmente se ela no fosse to egosta a ponto de se preocupar tanto com os prprios 
problemas. As lgrimas queimavam-lhe os olhos, mas Briony tentava cont-Ias. De repente, deparou com o porto que levava  praia. Aquela escada to estreita e perigosa 
era, com certeza, atraente para uma criana levada de dois anos, pensou com desespero. Desceu os degraus, ignorando os arranhes em sua pele delicada, procurando 
pelo filho freneticamente nas fendas das rochas onde as terrveis guas do mar batiam com violncia. Onde poderia estar? Sozinho e amedrontado, provavelmente chamando 
por ela, se ainda estivesse vivo.
       - Pelo amor de Deus, no! - As palavras saram com desespero dos lbios plidos. 
       Seus olhos se arregalaram de medo e terror e sua respirao tomou-se cada vez mais ofegante quando olhou para o mar. No havia sinal do garotinho. Voltou 
para a vila e ficou observando o telefone mudo. Onde estava Ken quando ela mais precisava dele? Se pelo menos algum aparecesse! Ela no sabia falar quase nada em 
francs e, mesmo que conseguisse entrar em contato com a polcia, como poderia fazer se entender? Onde Nicky poderia ter ido? Ele era to pequeno, incapaz de andar 
por mais de dez minutos sem se queixar que as pernas estavam doendo e pedir colo. Ele era to amado, to maravilhoso! A motivao mais importante de sua vida, e, 
s de pensar em perd-Io, sentia uma dor imensa.
       Ela ouviu um carro parando e saiu correndo. Deu um suspiro de alvio quando viu que era Ken. Ele estava manobrando e no a tinha visto. Com medo que ele fosse 
sair novamente, Briony jogou-se desesperadamente contra o automvel, estremecendo de dor quando o pra-choques bateu em seu corpo magro. Em meio ao rudo dos freios 
e seu grito de dor, ela ouviu a porta do carro se abrindo e a voz de Ken:
       - Sua louca, o que est tentando fazer? Matar-se?
       Ela comeou a dizer-lhe que Nicky havia desaparecido, mas perdeu os sentidos e no conseguiu falar mais nada. Nos sonhos tumultuados, ela procurava Nicky, 
a respirao ofegante, o corpo em febre, sempre chamando o nome dele, mas o garotinho a evitava. Uma ou duas vezes, Ken apareceu nos pesadelos com uma expresso 
acusadora quando perguntava o que ela havia feito com o filho dele e, embora Briony pedisse para ser perdoada, ele nunca o fazia. Algumas vezes, ela voltava ao passado 
quando ainda existia Ken. Acordou durante um desses sonhos e percebeu que dormia na vila. O cu estava escuro e repleto de estrelas brilhantes. Sentiu algum sentado 
a seu lado. Ela tentou virar a cabea, muito pesada, e reconheceu Ken.
       - Nicky - conseguiu dizer, com dificuldade. - Onde est Nicky?
       - Est seguro com Hloise. E muito preocupado com a me. O que aconteceu para voc se jogar na frente do carro?
       - Eu no conseguia achar Nicky... - Ela tentou forar a memria. - No havia mais ningum por aqui. Eu... 
       As lgrimas comearam outra vez a correr-lhe pelo rosto e ela mordeu o lbio com fora. Seu corpo doa por causa dos arranhes e machucados causados pela 
batida.
       - Ele no estava perdido - disse Ken, com calma. - Eu pedi que Louise falasse a voc que ns amos lev-Io ao aeroporto para ver os avies.
       - Ele estava com voc o tempo todo? - Briony comeou a rir, um riso histrico misturado s lgrimas. - Eu no sabia... Eu nunca recebi seus recados.
       - Nem a primeira vez? - disse Ken enigmaticamente.- Voc sabe que est com uma febre muito alta durante trs dias?
       -  mesmo? - Ela estava completamente indiferente. - Posso ver Nicky? - ela quase implorou. - Por favor, Ken, no me atormente mais!
       - Claro, Briony! Fique calma, por favor. Vou pedir a Hloise que o traga aqui e depois voc deve tentar dormir.
       Nicky estava to bem que ela sentiu vontade de chorar. Passou as mos pelo corpo do menino, que tentou se esquivar. Mas Briony no resistiu ao desejo de abra-Io 
e assegurar-se de que no estava sonhando.
       - Querido! - sussurrou, abraando-o com os olhos lacrimejantes quando viu Ken entrar no quarto.
       - Agora v com Hloise, Nicky - disse Ken, com calma. - A mame precisa dormir.
       - Sim, eu sei. Porque ela ficou muito doente!
       - Eu estou bem melhor, querido. - Briony afagou-o com suavidade, entregando-o a Hloise. 
       J tinha passado muito tempo da hora de ele dormir, mas Hloise explicou que o mdico dissera que Briony poderia acordar a qualquer momento, e eles mantiveram 
o menino acordado porque sabiam que ela gostaria de v-Io.
       - Por que voc estava pensando que eu queria castig-Ia? - perguntou Ken, quando eles ficaram sozinhos.
       Briony pensou que ele ia sair do quarto junto com Nicky e Hloise, porm ele ficou, aproximando-se da janela antes de olh-Ia e fazer a pergunta.
       - Eu disse isso? - perguntou ela, a voz fraca. - Eu...
       - Em seus sonhos... durante a febre... era uma idia fixa - explicou Ken. - Voc me pedia o tempo todo que a perdoasse e tambm implorava para que eu no 
a ferisse nunca mais.
       - Eu estava apavorada imaginando que voc iria me responsabilizar por no cuidar bem de Nicky - admitiu Briony. - Ser que pode me deixar sozinha, por favor, 
Ken? Eu... eu estou muito cansada.
       Ela no suportaria mais nenhuma pergunta dele. Se Ken continuasse a pression-Ia, fatalmente ela acabaria se denunciando e admitindo que o amor e a compreenso 
dele era tudo o que queria. Depois que ele saiu, Briony no conseguiu dormir. Tomou um banho e voltou para a cama, contando carneirinhos at que finalmente o cansao 
a venceu. Ela sonhou outra vez. Aquele sonho em que acordava e Ken no estava l. Com medo, ela chamava incessantemente pelo nome dele em meio a gemidos de dor, 
no percebendo que no estava sozinha at o momento em que acordou nos braos de Ken. Era bvio que ele j tinha se deitado havia muito tempo, pois o relgio marcava 
trs horas da manh, e a cama estava muito quente.
       - Briony...
       - No me toque - disse ela, soluando, ainda magoada com as lembranas do sonho. - Voc no se preocupa comigo. S consegue ser carinhoso com Nicky.
       Ele acariciou os cabelos dela e perguntou:
       - E voc quer que eu seja carinhoso com voc tambm? - Ao ouvir a pergunta Briony ficou gelada, e seu corao disparou. Ele passou o brao por ela, abraando-a 
com ternura. - Voc quer, Briony? - repetiu ele. - Era isso que queria na praia? Que eu a amasse? - Ken comeou a beijar-lhe os ombros, e Briony sentia necessidade 
de reagir. Mas, ao lembrar a maneira cruel como tinha sido rejeitada, ela encarou-o com olhos assustados. - Voc realmente ia se entregar para mim, querida? No 
estava apenas brincando como eu pensei? - Havia um tom suave naquela voz, e seus lbios excitavam delicadamente a pele de Briony.  O corpo dela tremia contra o dele 
e, apesar de tentar esconder isso, Briony sabia que Ken estava percebendo. Ele beijou-lhe carinhosamente a nuca, provocando sensaes inacreditavelmente deliciosas, 
e os lbios dela tiveram de permanecer bem fechados para no soltar algum gemido de prazer. Ken comeou a acariciar-lhe a pele, afastando a delicada camisola de 
seda, deixando-a inteiramente nua. Beijou o pescoo e depois foi descendo pelo colo. Desta vez era impossvel esconder as reaes. A garganta de Briony doa por 
causa da tenso, e a cabea ia caindo de encontro aos travesseiros enquanto ela pedia que parasse. Ele sorriu. - Na verdade voc no est querendo isso, est? Aquela 
criatura ardente que saiu do mar e veio na minha direo no pode ter desaparecido completamente. - Ele a abraou, segurando-a com fora, a boca procurando vagarosamente 
a dela, antes de beij-Ia apaixonadamente. Os sussurros de satisfao dele fizeram com que Briony quisesse responder e, apesar de ter prometido a si mesma que no 
trairia os prprios sentimentos outra vez, comeou a ceder. Sua pele queimava, a boca estava seca com tanta ansiedade. Ela tocou o corpo de Ken com paixo, sentindo 
que ele estremecia a cada carcia suave. - Meu Deus, Briony. - Ken abraou-a com fora, para mostrar-lhe o efeito que esses toques delicados estavam causando nele. 
- Dessa vez no h retorno para nenhum de ns - preveniu ele, acariciando-lhe os seios. - No h brincadeira, nem... - Ele a beijou com ardor, dominando o corpo 
dela com o seu e aumentando cada vez mais o desejo de Briony.
       - Quero voc, Ken - sussurrou ela. - No me deixe dessa vez. No pare...
       Ele acariciou os cabelos de Briony, a respirao tornando-se cada vez mais profunda. Abraou-a com ternura e delicadeza, intensificando o prazer dela at 
a satisfao total. Houve um momento em que ela pensou que ele ia se afastar. Segurou-o pelos ombros, mas Ken a tranqilizou.
       - Est tudo bem, querida... tudo bem. - Ento a possuiu completamente. Briony suspirava contra os lbios dele e, com voz tranqila, Ken continuou: - Deixe-me 
t-Ia totalmente, Briony, de corpo e alma... - O desejo deles foi satisfeito plenamente em ondas de prazer avassaladoras. - Voc gostou, querida? Voc me quis exatamente 
como na praia? - lembrou Ken.
       Na praia! Isso a fez se lembrar de coisas que j tinha praticamente esquecido.
       - Foi diferente. - Eles tinham feito amor, mas ainda precisavam resolver tantas coisas!
       Ken tomou o rosto dela entre as mos, estudando-o cuidadosamente, beijando suavemente aqueles lbios trmulos.
       - Por qu? Porque tia Marian tinha acabado de lhe falar sobre a minha doena? Oh, sim, eu sei. Ela me contou tudo durante esse tempo em que voc esteve na 
cama. Foi isso que destruiu todas as barreiras, Briony? Por isso voc correspondeu com tanta paixo?
       Ele acariciou a nuca de Briony enquanto ela tentava esquivar-se daqueles carinhos. Ainda agora, depois de ter sido amada, sentia um pouco de medo.
       - Voc j sabe porque fiz isso - respondeu Briony. - Tudo fazia parte de seu plano para acordar a mulher que existia em mim, no ? E ento rejeitar-me como...
       - Da mesma forma como pensei que voc fosse me rejeitar? - perguntou Ken. - Foi isso o que pensou? Foi? - Ela ficou em silncio durante um longo tempo porque 
se sentia incapaz de falar. - Voc realmente quer saber a verdade? - perguntou ele finalmente. Briony respondeu que sim, desejando ser capaz de suportar qualquer 
coisa que ele pudesse dizer. - Quando voc saiu do mar daquela forma, percebi que era a mulher mais atraente e sensual que j tinha visto, e ento, da maneira como 
voc me correspondia... Voc sabe h quanto tempo sonhava em t-Ia daquele jeito? - perguntou ele, zangado. - Por Deus, Briony, todos aqueles meses que eu passei 
na frica, sofrendo, e depois voltando to doente! Quase cheguei a odi-Ia, meu amor. Eu podia entender que voc estivesse magoada, mas nunca pensei que fosse me 
rejeitar completamente. Dizia a mim mesmo que conseguiria esquec-Ia. - Ele continuava a acarici-Ia, e ela correspondeu. - Ento ofereceram-me um emprego na Amrica 
e no aceitei. Londres era mais atraente. No era difcil encontrar-me batendo  porta daquele apartamento, implorando que voc voltasse para mim. E ento voltei 
e a primeira pessoa que encontrei foi voc, mas voc estava mudada: estava fria e me odiava... Exigia que eu me sentisse culpado! Voc parecia to distante que eu 
nem conseguia compreender por que voc me recusava. Pensei que estava tentando fazer com que me sentisse um monstro! A descobri a existncia de Nicky, e tudo comeou 
a ter sentido. Aquela era a sua vingana por eu t-Ia deixado sozinha e com um filho. Mas ento j era muito tarde. No foi apenas por causa do caso Myers, voc 
precisa acreditar! Eu a queria, querida, mas no podia confiar em voc. No havia jeito de voc descobrir a verdade atravs de Susan Myers, ento eu resolvi lhe 
explicar tudo depois que os problemas estivessem resolvidos. - Ele fez uma pausa, e ela sentiu-se confusa. - Imaginei que j casados poderamos nos lembrar de toda 
essa histria e dar boas risadas. Voc havia se entregado com tanta doura que no consegui acreditar quando mais tarde me recusou. No me casei com voc apenas 
para ficar perto de Nicky, Briony. Eu poderia ter conseguido isso nos tribunais. No! Quando a vi novamente, soube que queria voc, no importava quanto tivesse 
de lutar. S me casar com voc no era o suficiente, eu precisava tentar transform-Ia outra vez naquela mulher adorvel que conheci...
       - Pensei que voc quisesse apenas se vingar.
       - Eu sei... agora. Quando Marian me disse que voc nunca recebeu minhas cartas, pensei que voc estava mentindo e ento fiquei me perguntando por que voc 
estava agindo assim.
       - Susan Myers deve ter sumido com a carta - comentou Briony. - Pensei que voc tivesse me deixado, Ken, e fiquei muito magoada. Ns havamos feito amor e 
foi a coisa mais bonita que aconteceu na minha vida. Fantasiei que voc iria voltar, o que no aconteceu, e ento o escndalo explodiu e... descobri que estava grvida... 
Fiquei to magoada pensando que voc jamais iria conhec-Io, que nunca poderia ver aquela criana maravilhosa que ns tnhamos gerado...
       - Quando me casei com voc pensei que talvez voltasse a me amar...
       - Eu nunca deixei de am-Io - confessou Briony, acariciando os ombros de Ken. - Tentava me convencer de que tinha esquecido voc, porm estava me enganando. 
Quando Marian me contou o que realmente havia acontecido, e eu soube que voc me amava, s conseguia pensar nisso. Achei que, se lhe mostrasse os meus sentimentos, 
conseguiramos superar o passado. S no pensei que voc tambm poderia estar magoado...
       - E por isso voc se entregou abertamente... e eu a rejeitei. Voc acha que vou ter outra chance como aquela? - perguntou ele, beijando-a.
       Na escurido, Briony olhou para ele.
       - Voc quer dizer...
       - Eu quero dizer uma outra apario vinda do mar, mas dessa vez, querida, prometo a voc que ser bem recebida. No agora, mas quando voc achar que confia 
plenamente em mim. Quando tiver me perdoado e superado todas as lembranas amargas e... Aonde voc vai? - perguntou ele, quando ela saiu da cama. 
       Ela parou e sorriu misteriosamente.
       - Tente adivinhar! - exclamou, provocando-o. - De repente senti uma vontade imensa de nadar.
       Quando olhou para ele, percebeu que Ken realmente a amava, mesmo antes de ouvir as declaraes apaixonadas.
       - Eu a amarei para sempre - murmurou ele, enquanto pegava nas mos dela para beij-Ias com adorao.
       - E eu o amo loucamente!
       Ela no conseguia esperar mais para ir at a praia. Suas mos tremiam nas dele, a luz que brilhava em seus olhos era de ternura e, com um pressentimento repentino, 
Briony soube que naquela noite conceberia uma segunda criana.
       Sorriu. Um presente de Ken, seu marido adorado... um presente da vida, um presente de amor.


Fim
